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100 anos de Heleno de Freitas: o berço mineiro de um ídolo do futebol brasileiro

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GloboEsporte.com conversa com personagens e reúne trechos de documentário que conta passagens de ídolo do Botafogo e campeão com o Vasco em São João Nepomuceno

O talento, a genialidade, o faro de gol. O glamour, o temperamento, a elegância. O Botafogo, o Vasco, o Boca Juniors, a seleção brasileira. A vida de Heleno de Freitas foi tão curta, quanto intensa, dentro e fora dos gramados. Essa história muita gente conhece.

No entanto, a rica trajetória de um dos primeiros ídolos do futebol brasileiro tem um “lado B”, que só as pessoas mais próximas vivenciaram, tanto no início, quanto no final da vida deste personagem importante e controverso que nasceu em Minas Gerais.

Nesta quarta-feira, dia em que Heleno completaria 100 anos, o GloboEsporte.com visita São João Nepomuceno, cidade natal e palco de muitos acontecimentos na vida do atacante.

A reportagem conversou com pessoas que tiveram a chance de viver ao lado de Heleno e, com a ajuda do documentário “Heleno de Freitas – 100 anos”, do jornalista Nei Medina, resgata depoimentos fundamentais para entender quem era Heleno de Freitas longe dos holofotes.

A infância e as peladas na Cidade Garbosa

De acordo com o relato da edição de 15 de novembro de 1959 do jornal A Voz de São João, “Heleno nasceu na chácara da família, no bairro Caxangá, em 12 de fevereiro de 1920“. Com os irmãos, cresceu em São João Nepomuceno e estudou na Escola Coronel José Bras, que ainda existe, mas atualmente funciona em outro lugar.

De acordo com o jornalista Nei Medina, de São João Nepomuceno, Heleno viveu na cidade da Zona da Mata por 13 anos e se mudou para o Rio de Janeiro após a morte do pai, Oscar de Freitas, em 1933.

Porém, esse período foi suficiente para que Heleno fizesse amigos e desse os primeiros chutes nas peladas disputadas no campinho atrás da escola e no Morro da Mangueira.

Segundo Clélia de Freitas Botti, que é prima de Heleno e conviveu com ele durante a infância, o futebol era claramente uma paixão do menino desde cedo.

– Ele jogava bola o dia inteiro na rua com os meninos quando era criança, adolescente. Só dava alguma confusão quando quebravam alguma vidraça. Mas ele era muito querido, todos gostavam muito dele – disse.

Questionada se o temperamento de Heleno nas partidas de futebol com os amigos na Cidade Garbosa era explosivo, Clélia, que tem 101 anos, afirma que o comportamento dele era muito diferente do que demonstrava em campo como profissional.

– Na rua ele não brigava, levava tudo na brincadeira. Todos gostavam dele. Ele nunca foi de brigar com os amigos por causa de pelada, nunca foi. Mas quando ele entrava em campo, ele se transformava – lembrou.

Entre o mundo e São João Nepomuceno

Após se destacar no futebol de areia, Heleno passou pelo Fluminense, mas acabou fazendo sucesso mesmo no Botafogo e na seleção brasileira, ao longo dos anos 40, época em que atingiu o auge no futebol.

Ele se tornou ídolo do Alvinegro e figura importante do Brasil, com grandes atuações nos Sul-americanos de 1945, em que foi artilheiro com seis gols, e 1946, quando também foi o maior goleador, com três. Nas duas oportunidades, foi vice-campeão com a seleção nacional.

Mesmo com o sucesso e o frenesi causado por ele no esporte nacional, e o glamour e as festas no Copacabana Palace, Heleno não se esquecia de São João Nepomuceno. Frequentemente, o astro visitava os familiares e encontrava os amigos para jogar futebol e conversar na cidade natal.

Depois da artilharia do Sul-americano de 1946, Heleno foi convidado pelo Combinado Guanabara para defender a equipe diante do Botafogo de São João Nepomuceno, em um amistoso local no campo do Mangueira.

Segundo relatos, presentes no documentário “Heleno de Freitas – 100 Anos”, o Botafogo de São João contratou um goleiro de Juiz de Fora que, sabendo do comportamento explosivo do atacante, resolveu provocá-lo durante a partida.

– Teve um lance lá em que o juiz deu impedimento do Heleno. O goleiro que estava no Botafogo zombou do Heleno, jogou a bola para ele, que disse “preciso disso não” (chutando a bola para a lateral). Depois, ele (Heleno) pegou a bola no meio-campo, veio, veio, e quando chegou na entrada da área, chutou no canto e disse “pega essa, palhaço”. A bola foi entrando assim… e o goleiro ficou com vergonha – disse Isautino Alves, morador da cidade, falecido em abril de 2019, com 101 anos.

Após ser vendido pelo Botafogo ao Boca Juniors e ficar duas temporadas no futebol argentino, Heleno retornou ao país em 1949, quando defendeu o Vasco, onde faturou o único título dele como campeão do Carioca.

Só que antes de se apresentar ao cruz-maltino, Heleno foi convidado para defender as cores do Mangueira em um amistoso. Segundo o jornalista Nei Medina, Hercílio Bolote, presidente e treinador do clube, pediu para Heleno trazer outros companheiros do mundo da bola para reforçar a equipe diante do Bonsucesso-RJ.

O craque cumpriu o combinado e trouxe mais três jogadores. Dentre eles estava Ermelino Matarazzo, goleiro que havia defendido o Botafogo, ao lado de Heleno. Porém, durante a partida, realizada no Campo do Mangueira – que é atualmente o Parque de Exposições Hercílio Bolote – uma decisão do treinador da equipe local mudou os rumos da partida.

Hercílio Bolote queria dar uma chance a Bezerra, goleiro que era da cidade e despontava como promessa da equipe. No entanto, Heleno teria se indignado, ameaçando deixar a partida junto com todos os reforços oriundos do Rio de Janeiro. E assim aconteceu.

“O jogo terminou 0 a 0 no primeiro tempo, estava pau a pau, equilibrado. Mas ele (Bolote) tirou o Matarazzo para colocar o Bezerra (jovem goleiro de São João Nepomuceno). Quando ele fez isso, precisou tirar todos de campo. Aí o Bonsucesso ganhou fácil”, disse João Furlan, de 87 anos, que acompanhou a partida, terminada em 3 a 0 para o time fluminense.

Declínio técnico e sífilis

Após passagem por São Januário, Heleno saiu do radar da seleção brasileira, que disputaria a Copa do Mundo em 1950. Com problemas pessoais com o técnico da seleção e do Vasco, Flávio Costa, o atacante passou a ser carta fora do baralho para o mundial. Com isso, Heleno deixou o país para defender o Junior Barranquilla, da Colômbia.

A derrota do Brasil para o Uruguai na final, no Maracanazo, deixou o país inteiro em choque com a perda do título, que seria inédito para o futebol nacional. Segundo relato presente no documentário de Nei Medina, João Furlan disse se lembrar do dia seguinte à final, em uma resenha com Heleno no Bar Dia e Noite, em São João Nepomuceno.

– Aconteceu um dia depois da Copa. Ele sentou na mesa com a gente e falou: “Se eu estivesse jogando, o Brasil seria campeão. Eu matava o Obdúlio Varela! Eu seria expulso, mas o Ademir ganharia aquele jogo sozinho. Ademir tinha medo dele (Varela). Eu não!” – contou.

Heleno já não era o mesmo, nem dentro, nem fora do campo. Com passagens discretas por Santos e América-RJ, o jogador encerrou a carreira profissional em 1951.

Com sífilis, Heleno começou a tratar a doença em 1952, segundo o jornal A Voz de São João, no Rio de Janeiro. Mais tarde, em 1953, retornou a São João Nepomuceno, e posteriormente passou um tempo na capital fluminense e em Juiz de Fora, com os irmãos. Em 1954, quando o estado de saúde piorou, Heleno foi internado em Barbacena, onde morreu em 8 de novembro de 1959.

Em depoimento gravado em 2000, Vera de Freitas, última irmã viva de Heleno na época, detalhou como ele passou a agir no dia a dia, quando já estava doente. Segundo ela, a enfermidade e o contato com a família mudaram bastante a personalidade de Heleno nos últimos anos de vida.

– Ficou completamente diferente dentro de casa do que no campo. Dentro de casa, era uma pessoa amorosa, tratava a família toda com carinho imenso, os sobrinhos pequenos, eu, a mamãe (Maria Rita de Freitas). Sempre trazia presentes para a mamãe. No campo ele era um louco, só dizendo assim, porque brigava com todo mundo – disse.

“Ele queria que todo mundo jogasse como ele jogava. Muitas vezes, a mãe dizia: ‘Você tem que jogar, deixar seus colegas para lá’. Heleno respondia: ‘Não, mamãe, eles estão recebendo salários e têm que defender a camisa que vestem’, completou”.

“Prefiro ficar com a primeira imagem”

Uma das pessoas com mais arquivos sobre a vida de Heleno de Freitas em São João Nepomuceno é o jornalista Nei Medina, do site Garbosa News. Apaixonado pela história do ídolo do Botafogo, ele explica por que reuniu tantas informações sobre a trajetória de Heleno.

– Me identifico muito com o resgate da memória esportiva, principalmente por ser aqui em São João Nepomuceno. Não existe presente, nem existirá futuro, sem os fatos do passado. O Heleno levou e elevou o nome da cidade a nível nacional e internacional, e por isso me propus a fazer este trabalho.

Nei afirma que para analisar o que foi a vida e a carreira de Heleno de Freitas é preciso estabelecer a sífilis como divisor de águas. Segundo ele, a doença fez com que o craque, galã, figura elegante e que estampava as manchetes esportivas e as colunas sociais nos anos 40, se tornasse outra pessoa.

O jornalista afirma que é necessário contar a história inteira de Heleno. No entanto, ele reconhece que sempre tendeu a dar mais ênfase às conquistas do que aos dramas do conterrâneo.

– Eu prefiro ficar com a primeira imagem. Em todas as matérias que escrevi dele, coloquei muito pouco dos dramas que ele viveu, porque já se falou muito sobre isso. Eu prefiro me apegar ao glamour e às glórias dele – fechou.

* Natural de São João Nepomuceno, Nei Medina tem 55 anos e é jornalista com passagens por TV, rádio e internet. Através de relatos colhidos por ele e a partir de um acervo de depoimentos a que teve acesso, produziu o documentário “Heleno de Freitas – 100 Anos”. Nei aceitou colaborar com a reportagem, cedendo os registros coletados por ele, com os devidos créditos.

Fonte: Globoesporte.com

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