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As finanças do Botafogo em 2019: sem salvação aparente por meios convencionais, a S/A parece ser a última esperança alvinegra

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Diante da maior dívida do futebol brasileiro e com receitas e orçamento estourados, o torcedor precisa puxar a calculadora para entender a viabilidade (e as dificuldades) da sociedade anônima

Quando o vice-presidente executivo, Luiz Fernando Santos, declarou em entrevista à Rádio Globo que o Botafogo era um “paciente em estado grave na UTI”, o mundo caiu sobre seus ombros. Torcedores protestaram e pediram sua saída, ficaram todos indignados.

Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente alvinegro, fez média com a torcida em sua reação. Em setembro, o cartola considerou a afirmação inadequada. UTI, imagina? Não levou muito tempo. Em dezembro, ele mesmo refez a metáfora de modo ainda mais contundente.

– Botafogo é um paciente que está moribundo na UTI, ligado por fios. A máquina está funcionando e ele não consegue mais se mexer sozinho e a gente está tentando mover a máquina. Não tem dinheiro, não tem um centavo. O clube está num estado de UTI, praticamente vegetal, respirando por aparelhos. Fizemos esse comitê para manter esses aparelhos ligados até aparecer um investidor – disse Carlos Augusto Montenegro.

Deixemos de lado a mudança de opinião do dirigente nesse breve período. Por mais que a torcida reprove quem admite publicamente que o clube padece, fato é que a metáfora do paciente em estado terminal é apropriada para o Botafogo e o tipo de medicação precisa ser discutida.

Em 2019, sob a direção do presidente Nelson Mufarrej e do vice-presidente geral Carlos Eduardo Pereira, o que era péssimo ficou pior. As receitas estão estagnadas em um patamar insuficiente para qualquer recuperação financeira, o orçamento novamente estourou e as dívidas pioraram em quantidade e perfil. As maiores do futebol brasileiro.

Respire. Vamos por partes.

A relação entre receitas e dívidas do Botafogo

Fonte: Balanços financeiros

Do lado das receitas, são poucas as boas notícias. A principal delas é que a entrada via direitos de transmissão continua estável, próxima dos R$ 100 milhões por ano. Ela só aumentaria se o time fosse bem em competições que incrementam esses direitos com premiações variáveis, como Copa do Brasil e Libertadores. E aí, falta futebol para chegar lá.

Na área comercial, patrocínios e licenciamentos caíram para menos da metade do que havia sido registrado no ano retrasado. Os R$ 11 milhões nessa linha também estão muito – mas muito – abaixo do que tinha sido orçado pelo financeiro alvinegro para a temporada.

Nas receitas diretamente ligadas à torcida, a arrecadação bruta nem parece tão ruim. Estável em relação ao ano anterior, não muito distante do que havia sido orçado, mas aqui precisaremos nos adiantar e tratar rapidamente de custos para entender o problema. Em 2019:

  • R$ 10,6 milhões foram a receita com vendas de ingressos
  • R$ 14,2 milhões foram a despesa com as partidas
  • Portanto, houve “prejuízo” de R$ 3,6 milhões se tratando dos jogos

O estádio deveria proporcionar rendas adicionais com locações, estacionamentos, bares e camarotes, não? E o resultado é:

  • R$ 3,2 milhões em receitas do Nilton Santos
  • R$ 9,5 milhões em despesas operacionais do Nilton Santos
  • Portanto, houve “prejuízo” de R$ 6,3 milhões se tratando do estádio

Isso apenas na operação (manutenção, pessoal, materiais, água e esgoto, energia elétrica, taxas, etc). Sem considerar juros sobre dívidas que estão no CNPJ do estádio, na “Companhia Botafogo”, que também existem.

Em resumo, a linha “torcida e estádio” pode até parecer razoável no quadro abaixo (com o detalhamento das receitas), mas o torcedor precisa ter consciência de que todo esse esquema é deficitário. De um ponto de vista estritamente financeiro, o Botafogo perderia menos dinheiro se jogasse num estádio em que não tivesse de administrar.

Na prática, até mesmo as receitas com sócio-torcedor (R$ 6 milhões) acabam sendo consumidas pelas despesas para entrar em campo.

O perfil do faturamento do Botafogo em 2019

Fonte: Balanços financeiros

Como o Botafogo não faz orçamento no início da temporada contando que vai perder todo o dinheiro da torcida apenas com despesas ligadas ao dia do jogo, esta é a frustração número um.

Em 2019, receitas com direitos de transmissão ficaram um pouco abaixo do que havia sido planejado. Problema número dois. A área comercial, você já sabe, decepcionou fortemente. Problema número três.

Diante de tantos problemas, o fato de o clube ter batido a sua meta em transferências de jogadores não chega a aliviar a frustração. O Botafogo precisaria vender duas ou três vezes o que planejou para compensar.

Na folha salarial, mesmo com um dos times mais baratos do Campeonato Brasileiro, o clube ficou acima do que considerava necessário em seu orçamento para fechar no azul. A combinação de todos esses fatores negativos numa temporada só é um deficit (ou prejuízo) no lugar do que deveria ser um senhor superavit (ou lucro).

2019 (em R$ milhões)OrçadoRealizadoDiferença
Receitas252185-67
Direitos de transmissão113101-12
Marketing e comercial6514-51
Torcida e estádio3026-4
Outros451
Transferências de atletas4039-1
Folha salarial667913
Resultado líquido72-21-93
Fonte: Orçamento e balanço financeiro

Tudo o que você leu até este ponto diz respeito apenas ao presente. Se o Botafogo estivesse tranquilo em relação ao endividamento, caberia repensar a operação para elevar receitas, reduzir despesas e, no ano seguinte, daria para jogar bola na primeira divisão com relativa tranquilidade. Só que décadas de má administração o endividaram.

Só em juros sobre dívidas públicas e privadas, o clube de General Severiano soma quase R$ 40 milhões por temporada. Mesmo num cenário em que as taxas de juros baixaram a um nível historicamente baixo.

Além disso, e ainda mais grave, são muitas as cobranças feitas ao mesmo tempo de dívidas que o Botafogo precisa pagar. Se a dívida bruta em mais de R$ 800 milhões não é assustadora suficiente, separá-la conforme o prazo para pagamento piora a percepção sobre o presente.

O clube encerrou a temporada passada com R$ 279 milhões a pagar no curto prazo, isto é, no decorrer de 2020. Um compromisso… impossível.

O perfil do endividamento do Botafogo por vencimento

Fonte: Balanços financeiros

O que faria um clube com crédito na praça? Tomaria empréstimos em bancos em caráter de urgência para arcar com os compromissos mais urgentes e negociaria o resto, mas o Botafogo não tem crédito na praça.

O que faria um clube com generosos mecenas? Dirigentes e conselheiros colocariam seus patrimônios para jogo e resolveriam a parada, pelo menos no curtíssimo prazo, para evitar que o futebol travasse. Só que R$ 280 milhões é demais. Não se resolve mais o futebol assim.

Ainda, o Botafogo precisa fazer pagamentos constantes para não perder benefícios como o do Ato Trabalhista. Este mecanismo organiza as dívidas com ex-funcionários e ex-jogadores em uma espécie de fila e viabiliza o pagamento gradual. A vantagem? Eles não cobram todos ao mesmo tempo. O problema? Só em 2019, o ato levou R$ 21 milhões.

A mesma lógica vale para o Profut. Com mais de R$ 300 milhões financiados com o governo – impostos que o clube não pagou ao longo das décadas –, bloqueios de receitas cessam desde que parcelas sejam mantidas em dia e as parcelas, mesmo reduzidas, são grandes demais. O Botafogo não conseguiria pagar o Profut. Só não é excluído dele, porque está quitando valores com depósitos judiciais.

O perfil do endividamento do Botafogo por tipo em 2019

Fonte: Balanços financeiros

Adianta contratar um jogador de renome internacional, como Honda? E o aumento que o carisma do japonês pode causar no sócio-torcedor e nas bilheterias? Não parece haver mais como salvar o Botafogo por vias ordinárias. Retomando a metáfora dos cartolas sobre o paciente em estado terminal, acreditar em fanfarronice de dirigente amador seria como tratar falência múltipla de órgãos com analgésico.

O Botafogo S/A pode ser a medicação tarja preta para este paciente e aqui é necessário ter cuidado para não ler a bula errado. A ideia é captar dinheiro com investidores – muito dinheiro! – e usar esta grana para resolver o endividamento. Em contrapartida, pela primeira vez na história, eles seriam “proprietários” (entre aspas, porque o plano alvinegro se parece mais com uma locação de longuíssimo prazo do que uma compra) da empresa que administraria o futebol profissional.

Qual o tamanho da necessidade? Os responsáveis consideram que a dívida parcelada por meio do Profut pode continuar com o Botafogo de Futebol e Regatas (a associação) e a empresa Botafogo S/A faria pagamentos para arcar com as parcelas. OK, R$ 319 milhões a menos.

O restante, R$ 507 milhões, não é tudo. Fora do que o Botafogo considerou como dívida “provável” com ações judiciais movidas contra o clube, existem R$ 209 milhões em ações que a diretoria entende que tem chances de ganhar na Justiça. No raciocínio inteiro que fizemos até este ponto, este valor não foi considerado, porque seu pagamento é incerto. Do ponto de vista de investidores que comprarão a S/A, esta parte também precisa ser resolvida de uma vez para acabar com riscos.

Como resolver R$ 716 milhões de uma vez? Esta é a gigantesca operação do Botafogo S/A que, até esta publicação, era montada por comissão de botafoguenses – que inclui Carlos Augusto Montenegro.

Uma coisa é líquida e certa: não serão captados R$ 716 milhões com investidores. O desafio das pessoas envolvidas na concepção da S/A é convencer credores a dar descontos generosos sobre suas dívidas, em percentuais próximos dos 80%, em troca do pagamento à vista dos valores restantes. Sem um perdão considerável, não haverá remédio.

Fonte: Blog do Rodrigo Capelo – Globoesporte.com / Foto de Capa: Infoesporte


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