Redes Sociais

Notícias

Dá para confiar em balanço de clube de futebol? Auditorias externas apontam inconsistências na metade da elite nacional

Publicado

em

Situações vão desde questões sem efeito prático na vida, como divergências ao contabilizar imóveis e depreciação, até indícios de problemas mais graves, como dívidas subestimadas

Brasileiro gosta de teoria da conspiração, então, aí vai uma: por que deveríamos acreditar que valores informados por cartolas em balanços financeiros de clubes de futebol são verdadeiros? Bem, pode ser que a desconfiança persista mesmo depois de ler os próximos parágrafos, mas a realidade é que existe um mecanismo para garantir essa veracidade.

Por força da Lei Pelé, toda demonstração de entidade esportiva deve acompanhar o parecer de uma auditoria externa. Um verificador independente precisa checar valores com base em documentos, controles internos e terceiros para atestar que os números procedem.

Por um lado, a torcida tem a possibilidade de saber da situação financeira do clube para o qual torce. Por outro, e talvez mais importante, bancos ficam menos desconfiados e tendem a emprestar dinheiro com taxas de juros mais baixas. Crédito todo mundo precisa.

Hoje, na elite do futebol brasileiro, praticamente todo balanço vem acompanhado de uma auditoria. Na primeira divisão nacional, só o Red Bull Bragantino tomou a decisão de esconder o parecer de seu verificador. Ninguém sabe por quê, mas a função da ferramenta é esta: diante de atitude como esta, o mercado financeiro e a torcida recuam.

E nos demais balanços, dá para confiar?

GloboEsporte.com checou os pareceres de todas as auditorias externas contratadas por 30 clubes sobre balanços de 2019 – todos do Campeonato Brasileiro, mais alguns destaques da série B. Seis clubes não publicaram balanços, o Bragantino não abriu a auditoria.

Entre clubes que cumpriram a lei e publicaram balanços e auditorias, a situação está dividida. Dez passaram pela checagem sem receber nenhuma ressalva, enquanto 13 “reprovaram” na prova e tiveram inconsistências acusadas. Algumas graves, outras não muito.

ClubeAuditoria externaRessalvas?
América-MGOvalle LeãoSim
Athletico-PRBDOSim
Atlético-GOUCCSSim
Atlético-MGSoltz, Mattoso e MendesNão
AvaíNão publicou balanço
BahiaBDONão
BotafogoBDOSim
BragantinoEscondeu parecer da auditoria
CearáSistemaNão
ChapecoenseNão publicou balanço
CorinthiansRSMNão
CoritibaNão publicou balanço
CruzeiroMooreSim
CSANão publicou balanço
FigueirenseNão publicou balanço
FlamengoEYSim
FluminenseMazarsSim
FortalezaMazarsSim
GoiásFlorestaSim
GrêmioRokembach + Lahm, Villanova & Cia.Não
GuaraniAssessoraSim
InternacionalBDONão
PalmeirasGFNão
ParanáMüller & PreiSim
Ponte PretaAudcorpSim
SantosRokembach + Lahm, Villanova & Cia.Sim
São PauloRSMNão
SportJosé Geraldo Lins de QueirósNão
VascoBDONão
VitóriaNão publicou balanço
Fonte: Balanços financeiros

América-MG

A questão está ligada ao Independência. Mais especificamente, a maneira como o estádio foi contabilizado no balanço patrimonial alviverde. A auditoria externa Ovalle Leão entendeu que a propriedade deveria ser enquadrada como “propriedade para investimento”, enquanto a direção do clube preferiu manter o registro contábil como “ativo imobilizado”. No cotidiano, a divergência faz pouca diferença.

Athletico-PR

A BDO apontou quatro inconsistências no balanço rubro-negro:

  • A auditoria não conseguiu checar a veracidade de valores vinculados à Caixa Econômica Federal e Banco Fomento. Eles podem não existir nas quantias informadas. A questão está ligada a empréstimos tomados para a reforma da Arena da Baixada para a Copa do Mundo;
  • A auditoria discorda da maneira como o clube registrou provisões para pagar processos na Fifa (R$ 1,6 milhão), processos tributários (R$ 122 mil) e receitas obtidas com processos judiciais (R$ 2,5 milhão);
  • A maneira como o Athletico-PR registrou a “receita diferida” relacionada ao televisionamento contraria o código contábil. Este item não tem efeito prático no cotidiano, pois não mexe com dinheiro vivo;
  • A auditoria critica a direção por não divulgar a total relação de atletas vinculados ao clube e seus respectivos direitos econômicos.

Atlético-GO

A auditoria UCCS Global fez as seguintes indicações:

  • A empresa não conseguiu verificar se valores informados para imóveis (R$ 24,6 milhões) e depreciação (R$ 393 mil) estão corretos;
  • A direção do clube corrigiu erros em balanços anteriores – R$ 2,2 milhões alterados –, mas não reconheceu os erros corretamente.

Botafogo

A BDO fez os seguintes apontamentos:

  • A auditoria não conseguiu confirmar a existência dos valores relacionados ao Bradesco e à instituição de fomento Crescer. Detalhes sobre eles, como garantias e avais envolvidos na captação, podem não ser aqueles informados no balanço;
  • Na Companhia Botafogo, empresa aberta para administrar o estádio Nilton Santos, também não houve checagem para cifras vinculadas à Caixa Econômica Federal. Mesmo problema do item anterior;
  • A auditoria questiona a decisão da direção botafoguense de tirar R$ 20 milhões de seu passivo, quantia relacionada a um empréstimo com a construtora Odebrecht, que está sendo discutido com participação do Ministério Público. Apesar de a empreiteira, possivelmente, não cobrar nunca este valor do clube, a ação judicial ainda não acabou.

Cruzeiro

Contratada pela diretoria provisória que administrou o clube no início desta temporada, a Moore assinalou:

  • A direção decidiu lançar como despesa a correção de R$ 33 milhões contabilizados de maneira equivocada em balanços anteriores. A auditoria afirma que, segundo o código contábil, esse valor deveria ter sido corrigido com a reapresentação dos balanços antigos. Com isso, o deficit de R$ 394 milhões está maior do que deveria;
  • O Cruzeiro tem R$ 27 milhões registrados em investimento na formação de jogadores das categorias de base. A auditoria não conseguiu comprovar que esse dinheiro realmente foi aportado, como, por exemplo, em alimentação, materiais esportivos, entre outros. O investimento pode estar supervalorizado;
  • A Moore não recebeu respostas de dois assessores jurídicos que estão envolvidos em processos cíveis, tributários e trabalhistas nos quais o clube é parte. Os valores informados nessas ações, não detalhados no parecer, podem não condizer com a realidade.

Flamengo

O clube trocou de auditoria nesta temporada com a chegada da EY, única Big Four no futebol brasileiro. Houve uma ressalva:

  • A auditoria não conseguiu comprovar o investimento de R$ 44 milhões na formação de jogadores das categorias de base. Valores aportados em alimentação, materiais esportivos, entre outros, não puderam ser confirmados por causa da carência de evidências.

Fluminense

A Mazars fez as seguintes ressalvas:

  • Apesar de o clube ter aderido ao Profut há cinco anos para renegociar suas dívidas com o governo, até hoje não foi possível confirmar a veracidade de R$ 157 milhões. Os valores devidos podem ser maiores;
  • A direção tricolor afirma que tem R$ 34 milhões em obrigações trabalhistas e fiscais a pagar, no entanto, a auditoria externa não conseguiu verificar, por meio de evidências, se este valor está correto. É possível que dívidas trabalhistas estejam subestimadas.

Fortaleza

A auditoria Accord tem apenas uma “reclamação”:

  • O clube afirma que seus bens estão estimados em R$ 4,9 milhões, porém a auditoria não conseguiu evidências de que os valores estão corretos. Estava havendo um levantamento geral sobre imóveis pertencentes à associação, quando o trabalho precisou ser interrompido por causa da pandemia do novo coronavírus.

Goiás

A Floresta assinalou:

  • O Goiás contestava uma dívida no valor de R$ 3,15 milhões desde 2009 com a empresa JF Esportes Ltda. A direção decidiu dar a questão como resolvida. O valor foi lançado como uma receita, suficiente para tornar o deficit a ser registrado em 2019 em superavit. A auditoria alerta que assessores jurídicos do clube discordavam da decisão;
  • O clube não conseguiu fazer a revisão de seus imóveis, nem calcular a depreciação sobre eles. A auditoria alerta que não sabe o tamanho desta ausência, uma vez que a revisão deveria ser lançada como despesa e poderia agravar o resultado líquido da temporada;
  • Embora tenha aderido ao Profut em 2015 para reparcelar impostos atrasados, a mensuração dos valores envolvidos na renegociação ainda não foi finalizada. Os números informados como dívidas parceladas por meio do programa podem ser maiores.

Guarani

A Assessora apontou as seguintes inconsistências:

  • A direção reconheceu ter investido R$ 3,2 milhões na formação de atletas das categorias de base, mas não conseguiu prover evidências desses aportes, como alimentação e materiais esportivos;
  • A auditoria aponta que o Guarani não reconheceu a correção monetária sobre dívidas tributárias, declaradas e não pagas, que chegam a R$ 116 mil. Sem a contabilização apropriada dos juros, o débito hoje pode ser maior do que o informado.

Paraná

A Müller & Prei questionou o ponto a seguir:

  • A auditoria aponta que o critério para a depreciação de bens não está sendo aplicado pelo clube de acordo com o código contábil. Além disso, o clube não conseguiu fornecer documentos que comprovem a localização física dos bens dos quais afirma ser dono.

Ponte Preta

A Audcorp avisa:

  • A Ponte Preta aderiu ao Profut em 2015 para refinanciar dívidas com o governo, mas até hoje não houve a mensuração dos valores devidos. Eles podem ser maiores do que os informados pelo balanço.

Santos

A auditoria externa foi feita pela Rokembach, Lahm, Villanova & Cia:

  • A auditoria alerta que representantes do Santos na Espanha, advogados do escritório Cuatrecasas, não informaram se a chance de perda em ação judicial era “provável”, “possível” ou “remota”. Trata-se da cobrança tributária sobre a transferência de Neymar para o Barcelona, na qual o Santos é cobrado em R$ 15,5 milhões. Não há como saber qual a probabilidade de este valor ter de ser pago;
  • A auditoria lembra da ação penal apresentada pelo fundo DIS contra o Santos por causa da transferência de Neymar. Não se sabe a parte que o clube precisará pagar, se for considerado culpado. Também pode ser acrescido ao endividamento um valor hoje imprevisto;
  • Apesar de o Profut ter sido instituído há cinco anos, ainda não houve a consolidação das dívidas fiscais refinanciadas por meio deste programa do governo federal. Os débitos podem ser maiores.

Fonte: Blog do Rodrigo Capelo – Globoesporte.com / Foto de Capa: Infoesporte


Clique para Comentar

Copyright © 2019 Rádio Botafogo. Todos os Direitos Reservados.

%d blogueiros gostam disto: