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Diante das limitações, Botafogo tirou coelho da cartola ao trazer técnico com tamanho de Ramón Díaz

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O Botafogo iniciou o Campeonato Brasileiro treinado por um decano do futebol nacional, Paulo Autuori. Sem que os resultados satisfizessem a diretoria, veio a aposta em uma solução jovem e caseira, como Bruno Lazaroni. Não há fórmula mágica para elevar de imediato o desempenho de um elenco limitado, em um clube com sérios problemas financeiros, mas na tentativa de apresentar uma aposta diferente e atender a outro perfil, o de um técnico estrangeiro, os alvinegros parecem sair no lucro às suas atuais perspectivas com a contratação de Ramón Díaz. Dentro das possibilidades, é um comandante com peso e capacidade de safar os alvinegros.

Um dos melhores jogadores argentinos dos anos 1980, Ramón Díaz também dispensa apresentações como treinador. Sua história fala por si, especialmente por sua passagem à frente do River Plate. A máquina de conquistar títulos na década de 1990 teve participação ativa do comandante, que montou times ofensivos e abundantes de jovens talentos. Deu continuidade a um trabalho que já era bem feito no Monumental e faturou quase todos os títulos possíveis de 1995 a 2000, incluindo a Libertadores de 1996. Guardadas as devidas proporções, o comandante representava aos millonarios na época algo parecido ao Marcelo Gallardo atual.

Depois que deixou o River Plate em 2000, Ramón Díaz teve períodos fora da casamata e chegou a voltar brevemente ao clube de 2001 a 2002. Emplacaria também no San Lorenzo, com o qual faturou o Clausura em 2007 e até eliminou o próprio River nas oitavas de final da Libertadores de 2008. Entre passagens por América do México e Independiente, o técnico voltaria ao River Plate em 2012. Assumia o time no lugar de Matías Almeyda, após o acesso e o fim do martírio na segunda divisão e recolocaria os millonarios no topo do país ao faturar o Clausura de 2014. Saiu logo após a conquista, sem entrar em acordo com a diretoria sobre sua renovação, mas deixando o caminho pavimentado para Gallardo substituí-lo e superá-lo.

Ramón Díaz chegou respaldado para dirigir a seleção do Paraguai a partir de 2014. Não faria grande trabalho, apesar da classificação sobre o Brasil nas quartas de final da Copa América de 2015. A Albirroja não decolou e cairia cedo na Copa América Centenário, sem dar grandes sinais de um futebol consistente como se esperava do comandante e o currículo recheado o levou ao Al-Hilal depois disso. O argentino conquistou o Campeonato Saudita com os alviazuis em 2016/17, mas não se aproximou do título da Champions Asiática, grande anseio da torcida naquele momento. Só, então, é que Díaz passaria a fazer trabalhos mais curtos.

Ramón Díaz durou poucas semanas à frente do Al-Ittihad, assim como não ficou tanto no malfadado projeto do Pyramids em 2019. No início de 2020, o técnico retornou ao Paraguai e esteve à frente do Libertad. Teve um bom início, mas a regularidade não se manteve depois da pausa causada pela pandemia. O Gumarelo até avançou às oitavas da Copa Libertadores, mas acabou atropelado pelo Cerro Porteño no Apertura Paraguaio. Uma sequência ruim de resultados culminou na demissão, quando a vaga nos mata-matas do torneio continental estava em risco e a relação interna não era positiva.

O histórico recente indica como Ramón Díaz não é uma garantia ao Botafogo. De qualquer maneira, sua história se faz respeitada e permite acreditar que o trabalho pode dar certo em General Severiano. O argentino possui experiência em grandes clubes e, principalmente, um passado recheado de títulos – ainda que sempre tenha feito mais em sua casa, o River Plate, mas diferente de outros treinadores estrangeiros rodados que chegaram ao Brasil, não é que os sucessos estejam restritos a um passado distante do novo comandante alvinegro.

Por seus entraves financeiros, o Botafogo tinha um limite para barganhar. Chegou a mirar César Farías, técnico que fez história à frente da seleção venezuelana, mas que não conseguiu registrar o mesmo impacto por clubes e teve sua passagem mais relevante à frente do The Strongest. Por mais que o venezuelano dirija a Bolívia atualmente, soava mais como um tiro no escuro por seu histórico instável à frente de clubes. Os cariocas também sondaram Daniel Garnero, de ótimo trabalho recente pelo Olimpia e Alexandre Guimarães, lembrado por seus períodos com seleções, mas responsável por quebrar o jejum do América de Cali recentemente. Ramón Díaz correu por fora e, no fim, inspira mais respaldo pela vasta vivência, assim como por já ter lidado com ambientes de pressão nas mais diferentes circunstâncias.

Apesar do dramalhão ao redor do Botafogo, não dá para dizer que Ramón Díaz assume um cenário de terra arrasada. Os alvinegros possuem um elenco mais fraco que boa parte dos concorrentes no Brasileirão, mas incluindo jogadores com potencial e suas atuações não são tão ruins. Há claros pontos a se melhorar, como a produção ofensiva e a capacidade do time em matar os jogos. Os botafoguenses tiveram algumas boas exibições no Brasileirão, até mesmo contra concorrentes ao título, mas não renderam tão bem em duelos nos quais precisavam sair mais e se impor. Neste ponto, o próprio estilo do novo treinador pode auxiliar.

Sobretudo em seu primeiro trabalho à frente do River Plate, Ramón Díaz foi reconhecido por montar equipes com qualidade ofensiva e alternativas de jogo. Isso se viu um pouco no período de reconstrução após a segundona, na última década, ainda que o time recorresse mais à imposição física e à velocidade. A um clube ameaçado no Campeonato Brasileiro, fechar a casinha e buscar o pragmatismo pode ser o caminho mais fácil à salvação. De qualquer maneira, o Botafogo depende de mais eficiência na frente e mais agressividade. Dentre os dez últimos colocados do Brasileirão, a equipe possui a segunda melhor defesa, mas o quarto pior ataque e isso com uma média alta de finalizações tentadas, a sétima maior da competição. Falta precisão tantas vezes.

Os jogadores do Botafogo podem se beneficiar com o aprendizado que Ramón Díaz proporcionará – como Pedro Raul ou Matheus Babi. Podem crescer com um treinador acostumado a revelar bons nomes e a valorizar jovens talentos. Ainda assim, o nível de exigência nos alvinegros deve aumentar, com o rigor tático estabelecido pelo argentino em seus trabalhos. Jogadores mais tarimbados do grupo, em especial, devem puxar a fila neste novo momento. Difícil imaginar, neste sentido, um técnico que pudesse beneficiar tanto os botafoguenses e ainda servir de escudo por sua imagem.

Obviamente, não há certeza com Ramón Díaz. O veterano também tem uma personalidade forte e costuma bater de frente internamente, sobretudo com dirigentes. Precisará se adaptar à realidade brasileira e ao próprio universo do Botafogo, no qual a perspectiva de investimento é limitada por ora e a pressão para conseguir os resultados se torna maior com as sucessivas crises internas. Ainda assim, parece um técnico capaz de manejar essa situação e resolver o mais urgente, dentro de campo, com a calma necessária para a salvação no Brasileirão.

Entre os caminhos possíveis ao Botafogo em meio à emergência, Ramón Díaz atende vários requisitos. É um treinador acostumado a ambientes mais expostos, vitorioso, com boas ideias e um currículo recheado. Foge das escolhas óbvias do futebol nacional, mas também não é uma aposta menos talhada de fora, como geralmente se apresenta entre os estrangeiros. A situação do Botafogo não beneficia e, neste momento, a política deveria evitar atritos, para garantir confiança ao argentino nos próximos quatro meses intensos e para provar que, dentro da falta de margem de manobra, os alvinegros encontraram uma opção e tanto.

Fonte: Trivela / Foto de Capa: Arquivo Pessoal


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