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Dudu Cearense destrincha bastidores e diz que era reserva porque Botafogo precisava vender Matheus Fernandes

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Dudu Cearense abriu o jogo sobre sua carreira e, sobretudo, sua passagem pelo Botafogo. Além da história sobre Marcos Paquetá, em entrevista no “Papo com Léo Careca”, o ex-volante contou diversas histórias de bastidores, afirmou que o “futebol é capitalista”, declarou que sabia “quem fazia migué”, disse entender ficar no banco de reservas, porque o clube precisava vender Matheus Fernandes, rasgou elogios a Felipe Conceição e Rodrigo Pimpão, explicou como era sua liderança interna e revelou que quase continuou no Alvinegro como gestor após encerrar a carreira.

Reserva para Matheus Fernandes

Com 35 anos em 2017, quando o Botafogo disputou a Libertadores pela última vez, Dudu Cearense era reserva. O titular era Matheus Fernandes, de 18 anos (negociado, posteriormente, para o Palmeiras e para o Barcelona). O ex-jogador deu sua versão.

– Futebol é capitalista total. Por que o Dudu não jogava muito no Botafogo? Por que é ruim? Não é isso. Vai colocar Dudu ou Matheus Fernandes para ser vendido? Eu entendia isso. Graças a Deus, o moleque hoje está no Barcelona. Ajudei muito ele fora de campo. Eu queria jogar, mas em termos de negócio, entendia isso. Futebol é negócio, é capitalista, é dinheiro, é fama, status, jogador quer dinheiro no bolso. Uns se identificam mais com um clube por ficar mais tempo – afirmou.

Confira outros trechos da entrevista:

Início da carreira

– Quando comecei era meia, cheguei a um treino no Vitória, tinha uns 20 meias-direitas. O treinador perguntou quem poderia jogar de volante, eu levantei a mão. Joguei e fiz três gols. Ele falou que eu parecia o Vampeta, poderia chegar à Seleção Brasileira de volante, mas eu queria ser meia. Comecei a ver jogos do Vampeta, virei fã. Queria ter uma marcação como a do Dunga e a qualidade do Vampeta com a bola. Falavam muito do Falcão, do Dunga, do Mazinho, tentei mesclar Dunga e Vampeta.

Destaque no sub-20

– Fui artilheiro e segundo melhor jogador do mundo sub-20. Não fui o melhor, porque deram minha taça para um cara da África, tinha nada a ver. Sempre tive liberdade por ser meia, tinha feeling e visão de antecipar o que ia acontecer nas jogadas, chegava para finalizar ou cabecear. Me arrependo de não ter treinado mais a perna esquerda, seria mais um diferencial que teria. Sempre tive esse privilégio de saber fazer gols. Gol para um volante é como um título, é difícil fazer, temos que marcar e criar. Chegava, às vezes, como elemento-surpresa.

Críticas da imprensa ao Botafogo 2016 / 2017 / 2018

– Foi o time do Botafogo mais próximo de conquistar a Libertadores e a imprensa chamava de limitado. Não costumava ver muito TV, jornais e rádios, mas chegavam em mim os comentários. Falava para o time “vocês acreditam mesmo nisso?” Na minha cabeça, nunca fui limitado, sei o meu nível, onde cheguei e o que disputei. Libertadores é abaixo da Champions, como posso ser limitado? É Botafogo, tem história e respeito.

Papel de líder

– O que fez a diferença naquele ano foi o grupo de jogadores, homens, ouviram muita pancada da imprensa, só pensávamos em fazer o nosso. Críticas e elogios vão sempre existir, mas íamos fazendo história. Jogávamos bem e éramos criticados, imagina se jogássemos mal? Como era grupo de homens, mantinha a mesma pegada, treinamentos fortes, com líderes. Nem todos esses líderes vão jogar, uns ficam no banco e não entram, mas chamam a atenção dos mais jovens, da diretoria, de questões equivocadas do treinador.

– Pensam que futebol é só estar no campo, mas tem muita coisa por trás. Ficamos quatro meses sem receber. Faço o que como líder? Vou falar para largar? Liderança não é isso, falava que estávamos sem receber, mas que o dinheiro viria na frente e a nossa história era escrita todo dia. Se baixar a cabeça e manchar sua imagem, você vai se perder e vamos perder você. Vai receber seu dinheiro na série B. Eu ia na mente dos caras, não tinha outra escolha. Tinha gente que ganhava R$ 1 mil e com três meses de salários atrasados.

Invasão de torcida e pedido para ser diretor

– Na fase ruim, a torcida invadiu treino. Eu não tinha medo de ninguém. Claro que se viessem 20 ou 30 cabeças, eu ia apanhar, mas se fossem uns quatro ou cinco, eu ia discutir ou até na sair na mão, se quisessem. Não podia apanhar de uns caras que não sabiam o que acontecia no dia a dia.

– Ninguém quer saber se o Dudu está bem em casa, se está com filho doente. Torcedor quer ir ao jogo, tirar o estresse, ver gol e zoar o adversário. Eu não dava desculpa nenhuma, nunca falei isso na imprensa ou na internet, porque respeito a camisa que eu visto.

– Quando saí, me pediram para ser diretor, falei que não podia, tinha que estudar e entender um pouco. Podia ser um elo entre diretoria e jogadores, mas precisava estudar. Sei bem o que o atleta faz e pensa.

Duelo com o Olímpia e importância da Libertadores

– Contra o Olímpia foi um dos jogos mais difíceis de 2016 e 2017. Foi o mais difícil, pela situação, Gatito estava no banco e entrou, meio frio e decidiu. Ninguém acreditava em nós, mas a motivação de Libertadores era de todo mundo. Nos treinos, saía faísca para ir na lista de convocados, nem era para jogar ainda. Chegava nos jogos, alguns eram cortados, eu fui cortado nesse jogo. Era Libertadores, a Champions da América. Todo mundo queria disputar e ser campeão. Cada jogo era uma festa.

– O cara não entender isso, pô, o campeão vai para o Mundial. Torcia mesmo para todo mundo arrebentar, a evidência era maior, vivia aquilo forte. Não tinha do que reclamar, era gratidão e aproveitar os jogos. Podia ir para a Europa, para o Mundial, Botafogo em evidência, mais patrocinadores e torcida no estádio, mas alguns não entendiam ainda. Eu não podia colocar pensamento na cabeça das pessoas. Não fomos campeões por um detalhe.

Papel da diretoria na queda na reta final de 2017

– Mantivemos isso até 2017, quase classificamos de novo, mas a diretoria, de alguma forma, não renovou com alguns jogadores ou só renovou no final, eu também não tinha renovado, deixou muitas coisas para definir no final. Talvez, se definisse no meio, a história era diferente. Uma coisa é jogar com contrato de um ou dois anos, outra é ter cinco jogos e não saber o que vai acontecer. Fica à mercê de um jogo, às vezes não é um jogo, é a construção de um plantel e quem são os líderes. Trabalhar com atleta é muito difícil, se não tiver com planejamento a longo prazo, vai sempre formar equipes a cada ano, o que é um risco muito grande.

Final antecipada contra o Grêmio

– Libertadores é muito nivelada, diferente da Champions. Nossa pedra que poderia aparecer era um time brasileiro, foi o Grêmio. Tivemos chances no primeiro jogo, teve o pênalti (não marcado sobre o Gilson). Fora de casa jogamos melhor que em casa, mas o futebol só presta quando a bola entra. Foi muito triste. Tínhamos um time redondinho, fechado, com qualidade, todo mundo sabia onde estava. Discutíamos muito nosso estilo de jogo, nos cobrávamos quando jogávamos mal. Ficava puto por não jogar, mas pensando em prol da equipe. A briga era sadia. Infelizmente, não classificamos por um detalhe, poderíamos ter ido para a final e perder ou ir para a final e ganhar. Perdemos de cabeça erguida.

Estilo de jogo com Jair Ventura

– A gente jogava fechadinho, quando fazia um gol era difícil entrar no nosso time. Era muito bem definido e jogava com a bola no pé também, quando não jogava que sofria. Contra o Barcelona, foi um dos melhores jogos. Dava para ser 5 a 0 tranquilo. Contra o Atlético Nacional, a mesma coisa. Tinha um estilo de jogo muito fechado com o Jair (Ventura) e sabia jogar, rodar a bola, tinha jogadores de qualidade. O Botafogo deve ter orgulho desse time, com orçamento lá embaixo, colocar aquele nível na Libertadores é para poucos.

Felipe Tigrão será um dos grandes

– Trocar de treinador é muito difícil, foi uma pena o Felipe (Conceição) sair, porque vai ser um dos grandes técnicos do Brasil. Pode escrever aí. Primeiro, porque é uma pessoa maravilhosa, limpo, íntegro e com conceitos de jogo de Guardiola. Infelizmente, não deu certo por uma partida. Quem não conhece o futebol, vai pela torcida e pela derrota. Se fosse eu o dirigente, não demitiria o Felipe, ia tomar pressão imensa da torcida e conselheiros, mas ia segurar. Só demitiria se viessem muitos resultados ruins e não jogasse em bom nível. Era um momento ruim, mas poderia ficar bom com o tempo.

Ex-jogadores em cargos estratégicos

– Quando se coloca duas filosofias de trabalho em três meses é uma loucura para o jogador. (Alberto) Valentim chegou, teve mais tempo e mais resultados. O que faz durar o treinador são as vitórias, mas quem está no comando tem que analisar estilo de jogo, consistência e se treinador é um cara simples e seguro. Sustento tese que toda direção de clube tem que ter alguém que entenda de futebol, que vivenciou lá dentro, para ser meio caminho andado de vitórias.

Premiação como motivação

– Na Libertadores, se meu time tem caixa e o Botafogo tinha na época, falava para os jogadores “ganha o jogo e a bilheteria é de vocês”. Me diz quem não ia querer jogar e correr?

– Fico besta de o cara acabar de chegar em um clube e ser capitão, sem conhecer torcida, cidade, forma de jogar e ainda ser ídolo. Alguns dão o sangue, outros não, isso não existe. Vou falar isso para a minha hierarquia? Não vou. Atleta tem que saber onde está, qual seu papel.

Sem migués

– Em 2018, estávamos quase caindo, ganhamos Flamengo, Corinthians, Internacional, faltava a Chapecoense lá. Antes disso, Matheus Fernandes ficou suspenso, tinham quatro volantes para uma vaga. Eu estava cinco meses sem jogar, treinando, esperando brecha. É como soldado, preparado sempre. Eu treinava como se fosse jogar no domingo e cobrava isso dos mais jovens. Se der migué, “aqui não”. Eu já sabia quem dava migué ou não. Quem dá migué, não é merecedor no futebol de resultados, pode conquistar algo, mas vai cair lá na frente. No futebol, não se engana por muito tempo.

Boa atuação contra a Chapecoense

– No jogo com a Chapecoense, eu era a última opção, mas estava pronto. Faca na caveira. O Zé (Ricardo) me perguntou como estava, falei que estava pronto. Ele precisava da minha experiência e estilo de jogo para vencer. Que presente ele me deu. Saí sorrindo parecendo uma criança para um dos jogos mais difíceis, para não cair. Cinco meses sem jogar, sem ritmo de jogo, não ligava para isso. Chamei o jogo para mim, porque se ganhasse eu ia chamar atenção, se perdesse do mesmo jeito. Só queria ganhar o jogo. Foi ganho na lábia, na raça, todo mundo querendo, para não cair. Nesse dia fiquei muito feliz, porque fui merecedor daquela vitória. Se eu tivesse dado migué por cinco meses, poderia ter ido para o jogo e atuado mal, ia ficar com peso na consciência. Eu só falava gratidão.

O exemplo de Rodrigo Pimpão

– Sou um dos primeiros a chegar e o último a sair. Em 2017, no último dia, o único na academia era eu. Ser líder não é só na lábia não, não é resenha e motivação, é ser profissional da hora que chegou até a hora de sair, a maneira que você treina. Tem um cara no Botafogo que respeito para caramba que é o Rodrigo Pimpão. Todo mundo critica, mas é um dos maiores profissionais que trabalhei na carreira. Claro que não é um craque, mas é muito profissional. Teve fase ruim, treinava igual a um maluco, dava carrinho no vento. Respeitava, porque ele levantava os moleques, era líder até sem jogar. Ajudava todo mundo, ensinava como entender o jogo, pensar mentalmente, dar conselhos para evoluir. Na minha época, não tive isso.

Críticas de torcida por salário e “laranja podre

– Os caras (críticos) me chamavam de coach motivacional, eu dizia quem dera, não precisaria nem correr. Só cheguei uma vez atrasado no Botafogo em quase três anos e foi no China Park concentrado em pré-temporada, dormi demais. Ninguém vê isso. Se aprende na Europa, se tem mentalidade dessa com todos, não tem como dar errado. Trazer uns caras mais experientes, que vão ser líderes, mas não jogam sempre e não ganhava esse caminhão de dinheiro que pensavam, não no Botafogo. Claro que não vou desmerecer, mas minha atitude era a mesma independentemente do dinheiro. Se eu ganhasse R$ 1 milhão, seria a mesma coisa.

– Por ter rede social muito ativa, era alvo muito grande. Falavam que eu e Carli éramos laranjas podres quando a equipe estava indo mal. Até postei foto com Luis Ricardo na minha época, podem falar do meu jogo, que estou mal, que estou gordo, mas mexer com meu caráter, que não sou profissional ou que faço sacanagem com o clube, eu não vou aceitar. Liderança era o dia a dia. Tinha prazer de ir trabalhar, um dos melhores ambientes que tive foi no Botafogo.

Quase virou gestor no Botafogo

– Quando acabou meu contrato em 2018, tentei falar com o Gustavo (Noronha, vice de futebol) para ser um cara do lado do Anderson Barros (gerente de futebol), como gestor da equipe, elo entre diretoria e comissão técnica. Eles queriam sim, mas não deu certo. Falei que se não fosse naquele momento, não seria tão cedo. Hoje, tenho meus projetos.

Como motivar um time

– Se houver convite, posso ver, estudar como ajudar, o que fazer e tentar de alguma forma colocar mentalidade vencedora de profissionais. Não é falar bonitinho não, quero resultado. Se ganhar jogo do Grêmio fora, eu vou ser o primeiro a falar “pode quebrar tudo” (no sentido de aproveitar). Ganha o jogo primeiro, depois vem me cobrar. Se ganhar os próximos cinco jogos, é R$ 1 milhão para a equipe. Qual jogador não vai correr? Jogador quer bicho, futebol é capitalista. Jogador não quer saber de resenha.

– Na Europa, não tem bicho, é só no Brasil. Lá são contratos altos, poucas resenhas e muito resultado. Simples e objetivo. É simples, o time está mal, bota o bicho e é errado, o atleta já está sendo pago para gerar resultados e ganhar os jogos. Não adianta nada diretor ir lá e falar que vai dar apoio. Isso motiva jogador?

– Agora, se o discurso for “estamos quatro jogos sem ganhar, não estou acompanhando os treinos de vocês, pensei que vocês poderiam ser tão profissionais quanto eu pensava. A partir de hoje, vou checar o relatório de treino de vocês e saber o que estão fazendo no Rio. Vou chamar um por um. É um recado para vocês, pessoal entre mim e vocês, mas se ganharem os próximos jogos, vão ter R$ 500 mil de bicho?”. Os caras vão ficar doidos com isso, em receber bicho. Futebol é capitalista. Para quem ganha pouco, esse bicho vai ser maior que o salário deles.

Bicho sem salário

– Se não está pagando, mostra a real. Não adianta bicho. Como cobrar de atletas se eles estão sem receber? Por isso, existem os líderes da equipe. Não adianta chegar lá e falar que vai pagar daqui a um mês, o cara está precisando de dinheiro para ontem. No futebol, não existe bonitinho, gosto ou não gosto, é resultado. Jogador é um produto na vitrine. Alguns são as peças principais, outros estão dentro da loja, são mais baratos. Chega na vitrine e fala que vai comprar para pagar três depois só. Não existe, não vai levar o produto.

Fonte: Redação FogãoNET e Canal Papo com Léo Careca


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