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Jefferson: “Nunca lamentei minha cor”

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Hoje empreendedor, Jefferson lembra da vida antes do futebol e do mais forte episódio de racismo que sofreu

“Não tenho nem palavras pra dizer o quanto eu amo a Maria Sônia, minha mãe. Passou muitas dificuldades, mas, mesmo assim, conseguiu educar, criar quatro filhos. Meu pai nos abandonou quando eu tinha quatro anos, mas ela ficou firme pra criar os seus filhos”.

A realidade da infância narrada por Jefferson de Oliveira Galvão, infelizmente, é mais comum do que deveria. O ex-goleiro do Botafogo ainda teve que se desdobrar para vencer na vida com mais uma dificuldade: a pele preta. No Brasil, os negros são os mais afetados pela desigualdade e pela violência no país. Jefferson foi um deles.

Até mesmo em casa: após ser abandonado pelo pai, o ex-jogador via com certa frequência a mãe ser agredida pelo marido em uma relação abusiva. Sair de casa parecia ser uma decisão fácil, mas não quando se tem quatro filhos para criar. Maria Sônia aguentou por muito tempo terror psicológico e surras físicas para manter as crias debaixo de um teto.

Eu tinha, na época, 11, 12 anos e a encontrei chorando. Eu falei: “Mãe, por que a senhora não sai de casa?”. Ela falou uma coisa que me marcou muito: “Eu vou sair de casa com quatro filhos e vou pra onde? Eu não tenho pra onde ir”. Ela passava aquilo em casa pelos filhos. Meu ex-padrasto, na época, batia nela. A gente via tudo aquilo, só que a gente era pequeno e não podia fazer nada.

Como tudo tem um limite, incentivada pelos próprios filhos, ela batalhou e conseguiu uma pequena casa através da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo). Jefferson não cabia junto com suas irmãs no quarto e tinha que dormir no corredor. Aperto? Sim, mas nada comparado ao alívio de poder viver em paz e livre da violência doméstica.

“A gente ficou muito feliz quando ela levou a gente na COHAB. Tinha um quarto pequeno, casa pequena, mas era tão impressionante. A gente morava com o nosso padrasto numa casa grande, só que a gente viu a felicidade dela, ficou tão feliz que a gente nem se importou. Minha mãe dormia no quarto e eu e meu irmão se dividia. Um no corredor e outro na sala, que era pequenininha. Foi muito bacana porque a gente foi crescendo juntos”, lembrou.

Foi então que Jefferson se viu como peça importante no tabuleiro. “Começou a crescer no meu coração que eu precisava vencer pra ajudar minha mãe. Isso que me motivou. Eu queria vencer na vida pra poder ajudar a minha mãe”, disse.

A violência doméstica, no entanto, não é o único problema de um jovem na periferia. “Eu nunca me lamentei, nunca lamentei a cor que eu era, nunca lamentei a dificuldade que eu passava”, contou.

Estar ciente das dificuldades, contudo, não as torna simples de serem encaradas. Jefferson enfrentou muitos desafios para virar goleiro profissional. Um dos melhores da posição durante o tempo em que jogou, ele encarou racismo até mesmo dentro da seleção brasileira, quando um dirigente impediu sua convocação por ser negro. Ele superou todas as adversidades para se tornar referência no Botafogo e, após pendurar as luvas, virar empresário. Nessa entrevista ao UOL Esporte, ele conta essas e outras histórias.

Clique para ouvir a entrevista na íntegra

Diretor da seleção vetou convocação de goleiro negro

Perguntar se um negro sofreu um caso de racismo parece desnecessário. Diante da óbvia resposta, Jefferson elegeu a situação que mais o marcou. Quando tinha 19 anos, já no Botafogo, ele foi impedido de ser convocado para a seleção brasileira sub-20 por conta da alta concentração de melanina na pele.

Ao lado de Fernando Henrique, ex-Fluminense, Jefferson era frequentemente chamado para defender a camisa amarela da categoria. Os dois se revezavam em várias partidas e, juntos, disputaram Pan-Americano e Sul-Americano. Roeram o osso, mas só um foi lembrado para comer o filé mignon.

“Na fase boa, que era o Mundial, eu falei: ‘Nós estamos dentro’. A gente estava fazendo um trabalho muito bom no sub-20, Mas, para nossa surpresa, eu não fui convocado. Saiu a convocação e meu nome não estava na lista. Eu fiquei muito chateado. Eu falei: ‘Cara, por que o meu nome não está na lista? O que eu fiz?’. Foram chamados outros goleiros”, lembrou.

O Mundial seria disputado nos Emirados Árabes, mas a Guerra do Iraque, em 2003, estava em seu ápice e a competição foi cancelada após toda a delegação desembarcar no país. O torneio acabou transferido para o final do ano. Foi então que um dirigente da seleção brasileira, mantido em anonimato por Jefferson, desfez uma grande injustiça.

“Faltando um mês e meio, mais ou menos, pra convocação da sub-20, que eles remarcaram pro final do ano, eu recebi uma ligação de um diretor da CBF, que me perguntou como estava minha rotina de treinos, essas coisas. Aí ele me perguntou se estava pronto para voltar para a seleção, já que teria a convocação para o Mundial nos próximos dias”, disse.

“Nem tinha perguntado nada, ele falou assim: ‘A gente não te convocou no começo do ano porque tinha um diretor aqui, na época, e ele vetou a gente de convocar todos os goleiros negros. Não podia convocar goleiro negro. Com a história do Barbosa, não tinha perfil da seleção. Aí, não teve como a gente te convocar no começo do ano. Agora, ele não está mais aqui. A gente vai fazer o que a gente sempre quis'”, completou.

No fim das contas, Jefferson foi convocado, ganhou a titularidade no meio da competição e foi campeão com a seleção. Momento pra extravasar? Não para ele. O dirigente que tinha feito a ligação para explicar o caso de racismo correu em sua direção e desabafou durante o abraço de comemoração.

“É impressionante como isso me dava mais força ainda. Era como uma injeção de ânimo. Eu tinha que vencer de qualquer jeito. Eu fiquei com aquilo para mim, não falei para ninguém. Eu sabia que poderia sofrer represálias. Aquilo me motivou muito durante a carreira. A gente foi pro Mundial sub-20. Comecei no banco, mas ganhei a posição no meio da competição. A gente foi campeão mundial sub-20, ganhamos da Espanha. Naquela euforia toda, comemorando e veio esse diretor e me abraçou. Ele falou umas coisas que eu não posso falar. ‘Eu quero que esse cara esteja vendo, agora, esse nosso jogo. A gente foi campeão mundial com goleiro negro jogando. Você tá de parabéns’. Eu me assustei, porque o cara desabafou mais do que eu. Parece que ele era o negro da situação. Ele ficou tão revoltado… Aquilo me marcou muito e respondi para ele que isso sempre vai existir, não tem jeito”, finalizou.

Me espelhei 100% no Dida

Promovido aos profissionais do Cruzeiro em 2000, Jefferson teve em Dida a grande inspiração. Ainda nas categorias de base, ele observava o já consolidado goleiro titular da Raposa. Não só pelos atributos dentro de campo, mas também por uma identificação criada fora das quatro linhas.

“Em quem eu me espelhei 100% foi o Dida. Eu fiz a minha base no Cruzeiro e via o Dida treinar todos os dias. Até na realidade também, por quê? Pelo biotipo, pela cor. Isso me identificou com ele. Eu via o Dida treinar e falava: ‘Eu quero ser igual a esse cara’. Eu via como alongava, como ele chegava antes pro treino, acabava o treino ele estava treinando ainda”, disse.

Os dois, inclusive, compartilhavam características parecidas de baixo das traves. Dida era conhecido como um goleiro frio. Jefferson, anos depois, ganhou o apelido que remete a essa semelhança: homem de gelo. “Tanto que, na época, às vezes me confundiam com o Dida, até por aquela coisa fria. Eu peguei muita coisa dele mesmo”, concluiu.

Pegador de pênaltis

Acho que dois pênaltis que peguei e foram importantíssimos, que mudaram muito: Messi e Adriano. Foram dois pênaltis que ficaram marcados. O do Adriano ficou marcado no Botafogo e o do Messi ficou marcado na seleção para todos os torcedores. Hoje, eu pego crianças que torcem pro Palmeiras, pro Corinthians, pro São Paulo e falam: “É o Jefferson que pegou pênalti do Messi”. Isso aí é gratificante, é muito legal e vai ficar marcado para o resto da vida.

Quando eu estava diante do Messi, eu não estava pensando, cara: ‘Eu estou diante do melhor jogador do mundo?’ Não passou na minha cabeça isso. Era um jogador de qualidade e eu precisava me concentrar o máximo possível. É claro que, depois que você defende, a repercussão é totalmente outra. Acabou o jogo e a ficha começou a cair. Quando você está ali, foca de tal maneira que é um jogador como qualquer outro. Você tem que pegar o pênalti.

No Cruzeiro, chegada por acaso

O Cruzeiro é um capítulo importante na vida de Jefferson. Mesmo que ele tenha saído para se consolidar no Botafogo, foi na Raposa que a primeira grande chance da carreira apareceu. Mesmo de uma maneira diferente daquela que ele imaginava.

“Na época, eu não queria ser goleiro. Não tinha muita procura. Hoje, você encontra escolas, como a do próprio Zetti. Antigamente, não. Todo mundo se espelhava no Romário, Ronaldinho. Queria fazer gol. Na minha época era o seguinte: ‘Eu quero fazer gol, porque os atacantes ganham muito dinheiro. Goleiro não ganha muito dinheiro'”, disse.

“O Clélio (primeiro treinador, na Ferroviária) enxergou em mim algo que muitas pessoas não tinham enxergado. Eu falei: ‘Não, eu quero ser atacante’. Ele falou: ‘Cara, você tem o dom de ser goleiro’. Na época, eu até fiquei bravo. Minha mãe se dava super bem com ele, que ia lá em casa e falava com ela. Então, ele foi uma das primeiras pessoas que acreditou no meu potencial”, completou.

Ele e o time foram, então, para uma competição em Foz do Iguaçu, no Paraná. O professor queria que o pupilo fosse como goleiro. Como os conselhos de Clélio não foram suficientes, Jefferson atuou no ataque. O jovem teve que bater com a cara no muro para aprender.

“Eu estava doido pra ir na linha. O goleiro reserva foi pro gol e eu fui na linha nessa competição. Só que eu não fui tão bem. O Clélio falou assim: ‘Acabou a competição, acabaram todos os jogos. Tem um olheiro do Cruzeiro aqui fazendo uma lista pra alguns jogadores fazerem teste’. Como eu vi que eu não fui muito bem na linha, coloquei na cabeça que tinha que falar com esse olheiro. Achei o cara, me apresentei e disse que era goleiro também. Ele me respondeu que já sabia e que estava fazendo uma lista. Fui para o ônibus e o Clélio me deu a notícia de que eu faria teste no Cruzeiro como goleiro. Pra ver como foi uma coisa muito de Deus: ele nunca tinha me visto jogar no gol, como é que ele vai dar uma oportunidade do nada? É surreal, é difícil isso acontecer, hoje”.

Assistente de palhaço

Durante a complicada infância, Jefferson teve algumas oportunidades de seguir caminhos errados. Algumas amizades serviram para mostrar que desde cedo ele sabia o que queria da vida e também o que não queria. Ele lembra um episódio em que teve que esconder um pacote de entorpecente da polícia, o que o afastou de um ciclo de pessoas que poderiam mudar sua história.

“Como todos os jovens, você tem muitas oportunidades de fazer coisas certas e coisas erradas. Graças a Deus, eu sempre tive uma boa educação. Teve até um episódio que eu falei que precisava rever as amizades. Eu estava numa roda de colegas e aí uns deles vieram me mostrar umas trouxinhas. Eu peguei na mão e perguntei o que era aquilo, mas entendi que não era coisa boa. A gente estava na calçada e, do nada, vira uma viatura. Esse amigo mandou eu colocar a trouxinha na boca. Na hora, eu botei e ele falou assim: ‘Se ele [polícia] vier, você engole’. A viatura passou, eu suando frio ali. Quando os policiais passaram eu cuspi aquilo e entendi que não era a amizade que eu queria”, lembrou.

Para evitar esse tipo de situação, Jefferson procurou ocupar seu tempo com atividades que pudessem ajudá-lo de alguma forma. Foi nesse período que descobriu o circo. Após sair da escola, ele corria direto para o local onde aprendia e se divertia.

“O circo, na realidade, não foi um trabalho. Foi algo pra eu não ficar na rua, vamos dizer assim. Eu acabava os estudos e ia pro circo. Eu sempre fiz capoeira. Então, eu sabia que o circo tinha cama elástica, tinha algo que a gente fazia nos eventos na cidade. Eu fazia de tudo lá. Me vestia de palhaço, ficava na cama elástica, andava de perna de pau. Foi algo que eu procurei pra não ficar na rua”.

Casa própria graças a Felipão

Após passar no teste, Jefferson ingressou nas categorias de base e viu sua vida mudar aos poucos. Primeiro, deixou de necessitar de ajuda financeira da mãe. Depois, passou a ajudar a família até que conseguiu comprar uma casa própria. Nada disso, no entanto, teria ocorrido se seu caminho não tivesse cruzado com Luiz Felipe Scolari, então treinador do Cruzeiro.

“Eu era juvenil e ainda tinha três anos de júnior. O Felipão, na época, falou que estava precisando de um goleiro pra compor o grupo, pois só tinha dois. Na época, eram o André e o Rodrigo Posso. O Fábio, na época, tinha viajado com outro grupo junto com o Gomes. Aí fui completar treino nos profissionais. Tinha Oséas, Ricardinho, caras que batiam muito bem na bola. Pegava pênalti dos caras e comecei a me destacar nos treinos”, afirmou.

“No final desses 10 dias, o Felipão me chama. Os juniores já tinham voltado. Na sala dele, com o Murtosa, ele fala assim: ‘Olha, quero te agradecer por você estar aqui com a gente, mas, agora, o Gomes vai chegar e você vai descer’. Eu falei: ‘Professor, muito obrigado pela oportunidade que o senhor me deu. O que você precisar de mim, eu estou lá’. Virei a costas e saí. Quando eu estava abrindo a porta, ele começa a dar risada. ‘Ô, guri, a gente tá brincando com você. A partir de hoje, você é profissional'”.

Luxa o dispensou do Cruzeiro

As dificuldades não ocorreram apenas na infância de Jefferson. Em dois momentos ele se viu em situação delicada e, em ambos, encontrou apoio no Botafogo. Sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, então técnico do Cruzeiro, o goleiro estava fora dos planos e foi emprestado para o América de São José do Rio Preto.

“Eu não tive problemas com o Luxemburgo, até porque acho que foi mais na parte técnica. Acho que ele enxergou que eu precisasse, talvez, dar uma rodada. Pelo perfil, característica do Luxemburgo, ele não contava mais comigo, mas não foi nada pessoal. Ele me dispensou e fui emprestado para o América de São José do Rio Preto. Foi um baque muito grande sair de um clube como o Cruzeiro e vir pra um clube que não tinha a mesma estrutura de um grande”, disse.

Foram poucas semanas lá até receber uma proposta do Alvinegro. “O Levir Culpi [que comandava na época o Botafogo] falou que me queria e o Acácio, treinador de goleiro, aprovou. Foram muito importantes na minha vida, porque são pessoas que, nos momentos mais difíceis da sua vida, acreditam em você. Então, é importante você ser grato a essas pessoas. Quando as coisas vão dando certo, é fácil você acreditar. Eu estava no América-SP, não estava jogando e eles me deram uma oportunidade de fazer uma história no Botafogo”, completou.

Apesar da dificuldade, Jefferson conseguiu dar a volta por cima, mas o pior momento da carreira ainda estava por vir. Após brilhar no Botafogo, ele fechou com o Trabzonspor, da Turquia. Ele teve problemas com o treinador, que não gostava de brasileiros. Ficou sozinho no país, sem jogar ou ser liberado.

Foi o único momento em que eu pensei em parar. Foram quatro anos difíceis. A forma de treinamento, a forma de jogos. Eu não estava treinando direito porque o treinamento já não era tão bom. Chegou uma hora que achei que tinha desaprendido a jogar futebol.

Assim como quando perdeu espaço no Cruzeiro, o Botafogo voltou a estender a mão para Jefferson. Uma parceria que deu mais que certo para os dois lados.

Na volta ao Botafogo, aceitou ganhar menos

Em 2009, o Botafogo reapareceu na vida de Jefferson. Ainda com Ney Franco no comando foi feita uma proposta. O goleiro voltou ao Brasil, mas viu uma crise interna no clube impedir o acerto. Passou algumas semanas treinando por conta própria até ser novamente procurado.

“Eu vim pra São José do Rio Preto e não aparecia nada. Eu recusei propostas da Turquia, de alguns de times de lá, mas eu queria respirar novos ares. Eu ia pra represa e lá tinha um campo de futebol, um campo de areia. Eu pegava uns conezinhos, uns gravetos que caíam da árvore e eu colocava como obstáculo. Eu ficava treinando zigue-zague. Os caras passavam e falavam ‘esse cara é meio louco’. Eu ficava treinando as quedas na areia, simulando um jogo. Ficava fazendo saída de gol sem bola. Eu precisava estar na ativa mentalmente, porque, na hora em que aparecer a oportunidade, eu tinha que estar pronto”, disse.

Semanas depois, o Botafogo o procurou novamente. A nova proposta tinha números bem inferiores ao que havia sido combinado inicialmente, mas Jefferson aceitou. Foi peça fundamental para manter o Alvinegro na elite naquele ano. Meses depois, pegou pênalti de Adriano na final do Carioca de 2010 e escreveu de vez seu nome na história do Alvinegro.

O Botafogo falou que me queria, mas que o acordo teria que ser outro. Era muito abaixo do que a gente tinha combinado. Eu precisava aparecer, não tinha que ficar preocupado com salário. Aceitei e fizeram contrato de quatro meses, pra saber como eu estava. Foi um desafio muito grande. O Botafogo, na época, estava na zona de rebaixamento. Não estava preocupado com salário, não estava preocupado com nada. Queria mostrar o meu potencial.

Eu pedi 15 dias para me preparar. Na época, era o Vágner o treinador de goleiros e a gente caiu dentro. A gente treinava três vezes por dia. Minha estreia foi contra o Fluminense, no Maracanã. Graças a Deus, fechei o gol. Empatamos em 0 a 0. Eu me lembro que em seis, sete jogos, eu estava fechando o gol. O Botafogo me chamou pra renovar e foi quando tudo, realmente, começou a dar certo. A gente foi escapar da zona do rebaixamento, praticamente, na última rodada.

O dia em que carregou a filha sem saber que era a filha

Uma das principais características de Jefferson é a concentração. Era cena comum vê-lo fazendo movimentos para se manter atento mesmo quando a bola estava no campo de ataque do Botafogo. Tamanho foco gerou uma situação inusitada com o goleiro e sua filha Débora.

“Teve uma época em que a minha esposa foi fazer uma surpresa pra mim, num jogo. Ela foi levar a minha filha como surpresa pra entrar comigo no jogo do São Paulo ainda, na época, se eu não me engano, foi em 2009. Acho que o Jobson fez dois gols naquele jogo. No túnel, a moça do Botafogo me entregou uma criança. Eu pego a criança e vou focado pra entrar em campo”, disse.

“Depois de uns 20, 30 metros, eu já pisei na grama, que eu olhei no meu colo e era minha filha. Pra você ver, nem tinha reconhecido que era minha filha de tanta concentração com que eu entrava nos jogos. Depois que eu olhei pra ela, eu falei: ‘Filha, papai’. Ela também não tinha percebido porque o estádio estava cheio e ela também ficou deslumbrada com os torcedores”, se diverte.

A Copa de 2014 e a relação com Dunga

Jefferson teve também uma importante passagem pela seleção brasileira. Mano Menezes foi o primeiro a dar uma oportunidade, mas foi com Felipão que o goleiro realizou o sonho de disputar uma Copa do Mundo.

“Foi um sonho realizado. Independentemente de como foi a Copa, que a gente sabe que as pessoas só marcam o 7 a 1, mas para a gente que estava ali dentro foi uma experiência única. Quantos jogadores não gostariam de participar de uma Copa? Dariam tudo. Eu já vi jogador falar que trocaria títulos para jogar uma”, disse.

O ex-goleiro viveu dentro do grupo a tragédia do 7 x 1, o que dá propriedade para falar sobre o que viu nos bastidores. Segundo ele, o fato de a Copa ter sido no Brasil criou uma pressão que afetou até mesmo jogadores mais experientes daquele grupo.

“Jogar no Brasil foi, psicologicamente, uma pressão muito grande. Eu via jogadores muito mais experientes do que eu sentindo a pressão. Todos sentindo a pressão. Tanto que a gente nem ligava muito a televisão, não ouvia muita reportagem pra não absorver mais pressão ainda. A gente sentia até mesmo nos treinamentos. A gente fez o que a gente pôde fazer”, afirmou.

“Aquele jogo contra a Alemanha foi atípico. É um jogo que dificilmente vai acontecer. O que aconteceu naquele jogo? Vou ser sincero. Eu acho que faltou um pouco de malandragem, um pouco de esperteza. Quando você leva dois gols, assim, relâmpago, automaticamente, você precisa entrar no jogo. Procura o equilíbrio. A gente, não. Em nenhum momento, a gente procurou esse equilíbrio. Fizeram 2 a 0: ‘A gente vai empatar, a gente vai virar, estamos em casa, a torcida é nossa’. Quando a gente foi dar por si, estava cinco. Faltou isso. Você não vai catimbar o jogo, mas, se você reparar, você toma um, toma dois, com toda sinceridade, o goleiro cai, o outro pede água, o outro vai trocar a chuteira. Isso é coisa do futebol, não tem jeito. A gente que estava no banco tentou falar isso pra eles, mas ficou sem reação”, completou.

Após a Copa de 2014, chegou ao fim o ciclo de Julio César, titular por duas Copas seguidas, na seleção. Jefferson aproveitou a brecha, já sob o comando de Dunga, mas algo não parecia certo para o goleiro e ele não se sentia seguro com o comandante. Mesmo titular e fazendo bons jogos, havia o sentimento que o treinador esperava uma oportunidade para realizar mudanças.

“O Dunga foi um cara que me deu a oportunidade de ser titular”, disse, grato. “Mas eu não entendi [o motivo de ter deixado de ser titular] muito também, na época, porque eu estava bem na seleção. Se pegar os números, eu estava bem. O que me estranhava, na época, é que eu não sentia uma proximidade muito forte do Dunga. Eu não sentia que eu era o goleiro dele. Você sente isso. O atleta sente. Não estava sentindo muita firmeza. Eu falei pro meu assessor, na época: ‘Parece que está esperando só uma oportunidade pra me tirar’. Não deu outra. Na primeira brecha que teve, no jogo do Chile, nas Eliminatórias, ele me tirou”, lamentou.

“Não entendi nada. Foi quando eu dei a entrevista e disse que achava que merecia um pouco mais de crédito na seleção diante de tudo o que eu tinha feito. O Dunga não gostou e rebateu dizendo que era ele quem mandava. Eu só falei que eu deveria ter um pouco mais de crédito por aquilo que fiz. Então, quer dizer que se o Alisson errar, hoje, vai tirar? Foi nesse sentido que eu falei. Não tem cabimento. Qualquer goleiro que errar, vai tirar o cara?”, indagou.

Mais de um ano sem jogar por erro médico

Após perder espaço na seleção, Jefferson declarou que o Botafogo era sua prioridade. Ídolo da torcida, ele ganhou apoio dos torcedores para seguir prestigiado. O problema é que, já em 2016, o goleiro sofreu uma rara lesão. O rompimento do tríceps o tirou dos gramados por um longo tempo. Nesse período, teve que lidar com um erro médico que causou a necessidade de uma segunda cirurgia no local.

“Eu fiz a cirurgia e era pra ficar uns quatro meses imobilizado. O médico, naquela pressa de querer voltar logo, falou que poderia voltar em dois meses. Só que ainda estava sentindo muitas dores. O médico falou que podia voltar: ‘Vai perdendo o medo’. Quando eu voltei, fui fazer um movimento na academia, questão de fortalecimento e senti uma coisa estranha. Com quatro meses, não passava a dor de jeito nenhum e ele me mandou a campo. Voltei a treinar com uma dor muito forte. Reclamei e ele disse que era normal”.

“Nesse momento, eu disse que ia buscar uma outra opinião, um outro especialista. Sabia que não é o procedimento do clube, mas eu tive que buscar. Na consulta, pra minha surpresa, falou que estava rompido. Rompeu justamente no começo, quando não estava cicatrizado e me colocaram para fazer esforço excessivo. Tive que refazer a cirurgia. Coisa que era pra ficar cinco meses fiquei, praticamente, um ano, um ano e pouco. Atrapalhou muito”, comentou.

Quando voltou a jogar, Jefferson encontrou novo cenário no Botafogo. Gatito Fernández já estava consolidado no time titular e sem dar brechas para o ídolo, que foi campeão carioca no banco de reservas. Quando o paraguaio deu uma brecha, também causada por uma lesão, Jefferson reassumiu a posição, mas voltou a viver um momento delicado.

Em um clássico com o Flamengo, se chocou com Lucas Paquetá. Fraturou o tórax, quebrou dois dentes e correu até mesmo risco de morte. Se viu novamente em uma longa recuperação. Foi neste momento que suas atribuições fora de campo ajudaram bastante.

“Foi impressionante, porque foi justamente nessa época que eu estava abrindo a Beato Cafeteria. Foi justamente nessa época que eu fiquei parado e entrei de cabeça. Eu creio que tenha sido até um propósito de Deus, porque eu não teria cabeça pra lidar com as duas coisas ao mesmo tempo. Eu ficava acordado até de madrugada elaborando cardápio. Foi a oportunidade que eu tive de ocupar a cabeça com outras coisas”, disse.

“A forma como o Botafogo conduziu o encerramento da minha carreira foi muito bacana. Eu já tinha falado no início do ano que seria meu último ano. Eles queriam fazer um jogo festivo, mas queria que fosse um jogo valendo. Eu vinha treinando, mas o jogo é diferente. Definiram que seria contra o Paraná e eu fiquei muito tenso. Só pensava que não podia errar e que tinha que ganhar. Você cria aquela expectativa toda. A minha esposa fez uma surpresa sensacional, que foi a minha mãe ir ao jogo. Foi bacana porque todos os jogadores se envolveram, também. Foi um jogo numa segunda-feira, deu muita gente no estádio. Vencemos o jogo também, fui bem no jogo. O encerramento foi perfeito. Não poderia ser melhor”.

Títulos continuam na cafeteria

Jefferson disse que os afazeres fora das quatro linhas tiveram papel fundamental no processo de recuperação de lesão na reta final da carreira. Após pendurar as luvas, o ex-goleiro virou empresário em São José do Rio Preto, onde conheceu a esposa Michelle e foi justamente na cidade que foi inaugurada a Beato Cafeteria, novo trabalho do ídolo do Botafogo.

“Eu conheci a minha esposa em 2003, quando eu tive uma passagem muito rápida, relâmpago, aqui pelo América. Eu saí do Cruzeiro, passei aqui, em 2003, fiquei três meses e foi só o tempo de conhecer a minha esposa e depois ir pro Botafogo. A gente se conheceu, namoramos, ficamos noivos, casamos e aí decidi voltar pra São José do Rio Preto”, disse.

“Eu procuro trazer tudo o que eu aprendi no futebol pra vida empresarial. Eu sou muito exigente naquilo que eu faço. Hoje, no Beato Cafeteria, uma das coisas que eu mais prezo é o atendimento às pessoas. Uma das coisas que eu mais prezava era o atendimento aos torcedores. Então, eu acabo associando as duas coisas”.

E a exigência tem dado resultados. Os títulos que conquistou dentro de campo seguem em ritmo acelerado como empresário. A cafeteria tem se destacado e conquistou até mesmo alguns títulos internacionais. Inclusive, virou franquia para todo o Brasil. Niterói, onde morou por muitos anos, deve receber uma loja nos próximos meses.

“Parei de jogar em 2018, nós estamos indo já para o quarto ano. A gente está, graças a Deus, num ótimo caminho. Já ganhamos uns quatro a cinco títulos, como melhor cafeteria. A gente até ganhou um prêmio internacional também, que vai receber lá em Portugal, Qatar e Canadá. Parei de jogar futebol, mas, graças a Deus, a gente continua ainda ganhando títulos”, afirmou.

A curiosidade é que a cafeteria surgiu após uma conversa com amigos que fez na seleção brasileira. O gosto de cada um deles, inclusive, gerou a montagem do combo que é servido na loja. No início até mesmo o nome dos atletas era utilizado, o que já não ocorre hoje.

“Eu estava sentado em uma mesa com os jogadores da seleção e eu via a forma como eles sempre tomavam café. O café da manhã deles era um café elaborado. Era uma coisa muito diferenciada. Eu conversei com o Júlio César, David Luiz, Taffarel e falei que queria abrir alguma coisa. O Taffarel me sugeriu a cafeteira, já que brasileiro ama café. Brinquei com eles que se levasse a ideia adiante precisaria da ajuda deles e ajudaram na elaboração de um cardápio diferenciado. Eles me cederam até a imagem deles, o Taffarel, Dida, David Luiz, Kaká, Robinho. Os caras mandaram vídeo. Foi bem bacana”.

Fonte: UOL Esporte


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