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Jornalista conta bastidores e curiosidades do Botafogo de 1995

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Marcos Penido, repórter especial responsável pela cobertura do Glorioso para o “Jornal O Globo” em 1995, viu a conquista do time de coração de um ângulo privilegiado

A carreira de jornalista, muitas vezes, dá ao profissional o privilégio de acompanhar de perto acontecimentos históricos. Na área de esportes, cobrir um título marcante do clube do coração é o sonho de qualquer profissional. Foi o que viveu o repórter Marcos Penido, responsável pela cobertura diária do Botafogo, em 1995, pelo “Jornal O Globo”. Em conversa com o LANCE!, ele contou bastidores da conquista do Brasileirão daquele ano.

– O ano de 1995 foi muito especial para mim. Primeiro, porque tinha feito a cobertura e vi a conquista de Brasileiros pelo Fluminense, Flamengo e Vasco. Tempos de muitas alegrias e felicidades. Vibrei com cada um, mas faltava aquele onde meu coração batia mais forte, o do Botafogo, meu time de coração. – contou Penido.

O jornalista  lembrou a chegada de um quase desconhecido Paulo Autuori, apelidado de “Rei Leão” pelos irreverentes Túlio e Donizete. Outros temas da conversa foram a criatividade da diretoria em um cenário de poucos recursos financeiros, as disputas no vestiário e a festa da vitória com direito a apresentação de Beth Carvalho.

Confira a entrevista completa de Marcos Penido ao LANCE!:

Cobertura jornalística diferente na época:

Para quem está acostumado com a cobertura de hoje, onde a entrada aos treinos é permitida em determinado horário (quando permitido) e o repórter precisa se virar com os contatos via telefone ou Twitter, análises mais técnicas e comparativas, porém um pouco mais frias, naquela época, era bem diferente. O contato era direto, quente, no campo e com muita amizade ou não e isso virava meio que um balizamento. Também haviam análises táticas, em menor quantidade e levantamento de dados estatísticos, mas não com a quantidade e variedade atual.

O Botafogo em 1995 e o “casamento” que deu certo:

O quadro que encontrei quando cheguei ao Botafogo de 1995 era interessante. Tinha um jovem presidente empolgado, inteligente e esfomeado por vitórias chamado Carlos Augusto Montenegro, trazendo toda sua bagagem do Ibope. Um pouco abaixo, o vice de futebol era um português dos mais simpáticos e rápido no gatilho da tomada de decisões chamado Antonio Rodrigues. O diretor de futebol era o eficiente Edson Santana. Para culminar, o Botafogo contava com José Talarico, filho de um ex-deputado estadual e um dos principais diretores da Pepsico, proprietária da marca Seven Up. Este era um refrigerante muito conhecido nos Estados Unidos, mas que, no Brasil, era forte apenas no sul do país. Talarico aproveitou o novo Botafogo que começava a aparecer e lançar o seu “novo produto”. Um casamento que, com idas e vindas, deu muito certo no final.

A aposta em Autuori:

O Botafogo, então, tinha uma diretoria antenada, aberta, mas sem muita chance de aparecer devido a um problema de anos e que continua até hoje: a falta de dinheiro. Coube ao português Antonio Rodrigues apostar em uma jogada arriscada, a de trazer um desconhecido e jovem técnico brasileiro que começava a despontar em Portugal por seus trabalhos em dois times pequenos. Ele começava a ser olhado pelos grandes quando Rodrigues, incrivelmente, conseguiu convencer seus pares que embora pouquíssimo conhecido no Brasil, Paulo Autuori merecia uma chance e seria um bom nome. Autuori devolveu com sobras o investimento não só no campo, quanto por suas ideias mais arrojadas para a época. Era direto, franco, com domínio do grupo e conhecimento técnico. Dono de uma enorme cabeça, que no meio da campanha do Brasileiro e na época da explosão do filme “Rei Leão”, o fez ganhar este apelido, não se sabe se pela cabeça dos irreverentes Tulio e Donizeti ou de Beto e Sérgio Manoel.

Staff de primeira:

O Botafogo tinha uma diretoria jovem e aberta a novas ideias, um técnico que resolveu enfrentar um enorme desafio dentro de seu país e um time de primeiro nível nos médicos Lídio Toledo e Joaquim da Matta, o preparador de goleiros Nielsen, Amildo Chirol supervisionando a parte física comandada pelo ex-jogador Ronaldo Torres. Para completar, PC, Paulão e cia formavam um time de roupeiros e massagistas da melhor qualidade, ou seja, os ingredientes estavam todos lá, à exceção do dinheiro, que faz muita falta.

Início cercado de desconfianças:

Foi essa falta de dinheiro que fez o Botafogo ter dificuldade de treinar no Caio Martins. O grupo de jogadores não era tão conhecido dos torcedores e o time se virava treinando em locais variados e com pouca visibilidade. Entrou na disputa do Brasileiro cercado de grande desconfiança, embora hoje, todos sejam justamente conhecidos merecidamente, mas na época, Wagner sofria algumas restrições, Wilson não era visto como o bom lateral que era. A dupla de zaga com os excepcionais Gottardo e Gonçalves ganhava críticas. Na lateral esquerda, foi um custo encontrar um nome. Foi necessário improvisar André Silva e, assim, ia com Autuori levando o grupo, Túlio virando artilheiro da competição e das bravatas. Era sensacional trabalhar com ele, pois tinha uma exata noção de como promover um clássico com provocações sadias, coisa que me dá um pouco de saudade. Donizete com seu jeito “pantera” de ser imitando o bicho em cada comemoração de gol, a eficiência e solidariedade de Sergio Manoel. Tinha também a disposição de Beto, que veio de Goiás trocado por um enorme número de chuteiras e as doidices de Iranildo, alegria do povo por sua inocência e que ficou famoso quando pediu uma Brasília Amarela, a da música dos saudosos Mamonas Assassinas e ganhou de Montenegro em pleno final de treino.

Discussões no vestiário e virada de chave:

Na medida que o time ia crescendo, aparecendo e se firmando, as brigas também iam e o grupo de titulares acabou dividido entre a turma de Gottardo, que cobrava pagamento e prêmios em dia e a de Túlio, que recebia o grosso pela Pepsi e todo início de mês estava com o salário praticamente em dia. Como Túlio também ajudava muito a quem recorresse a ele, tinha o apoio da turma mais necessitada, mas no vestiário, as discussões comiam soltas e, muitas vezes, os jornalistas chegavam a ouvir quando não aparecia um de um grupo ou outro de outro grupo para fazer carga e pressionar. Isso com o time ganhando e crescendo, apesar de tudo. Na minha opinião, teve um dia que foi fundamental na conquista: Montenegro e Autuori chamaram todos os jogadores para dentro do campo e a porrada verbal foi enorme. Isso na frente de todos os jornalistas e de maneira super civilizada e democrática. Ali, o Botafogo cresceu para mim e juntou as mãos para conquistar o título, pois pelo menos, todos concordaram que este era o objetivo e Montenegro deixou claro que atrasado ou não todos iriam receber. O título facilitava este caminho.

Primeiro duelo da decisão:

O time fez a sua parte, suou a camisa e mostrou um trabalho individual e coletivo bonito e eficiente com uma raça fora do comum na disputa por cada bola. Como se Nenem Prancha um grande frasista e treinador de futebol que batia ponto no clube alvinegro que lembrava: ” O jogador de futebol tem que ir para a disputa de um lance como vai num prato de comida, com fome”. Neném estava certíssimo e foi assim que Gottardo voou no Maracanã para colocar a vantagem contra o Santos. Giovanni, o craque da competição naquele ano, empatou e fez a torcida ficar tensa, mas Túlio que conseguiu a proeza de fazer com que a música de Benjor feita para o rubro-negro Fio se transformasse no “Tulio Maravilha, nós gostamos de você”.

Jogo de volta no Pacaembu:

No segundo jogo, no Pacaembu, Donizete entrou no sacrifício e o sufoco cresceu. Bastava ao Santos uma vitória e era o campeão, mas havia Túlio e o gol. Ele estava impedido, mas não perdoou, fez 1 a 0 e o juiz confirmou. Marcelo Passos empatou para o Santos e a pressão foi enorme, mas Wagner estava em dia de São Wagner, Gottardo e Gonçalves só coração, Leandro Ávila errando alguns passes, mas com um espírito de luta admirável. Tulio mais Tulio que nunca, Sérgio Manoel um leão, os laterais dando o melhor, Beto suor puro, Donizete no sacrifício e o time iluminado chegou lá.

Sonho realizado:

Por fim, vi no campo meu sonho se concretizar. No vestiário, era uma gritaria só. Abraços, Taça passando de mão em mão e os jogadores celebrando o fato de que o que poucos acreditavam agora era realidade. O vôo da volta foi com música o tempo todo e Tulio chegando na cabine do piloto próximo ao Santos Dumont. O piloto informava pelo sistema de som que havia uma multidão esperando o time e havia mesmo. Tanto que passei um dos maiores sustos. Pela janela, vi um montão deles cercando o avião e soltando foguetes. Me lembro que pensei: “pronto, só me falta ir pelos ares agora”, mas era um dia especial e todos puderam desfilar nos braços dos torcedores.

Festa com a “Madrinha”:

O ápice foi na festa de comemoração após a saída do aeroporto. Um jantar super alegre com as famílias dos jogadores e nada mais, nada menos do que Beth Carvalho comandando o show musical. O trabalho foi complementado pós-show com matéria para o jornal onde trabalhava e voltei para casa. Era um ser humano feliz em um dia / noite inesquecível!

Fonte: Lance / Foto de Capa: Site Oficial Botafogo


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