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‘Não somos inimigos”. Prass quer atletas discutindo sobre volta do futebol

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A conversa está na mesa. A volta do esporte tem sido tratada em vários lugares do mundo com os operadores do esporte e da saúde discutindo protocolos de segurança, questões financeiras, uma nova realidade para o jogo, mas no Brasil tem algo diferente, os atletas, os protagonistas do jogo, estão de fora dessa discussão.

‘Muitas vezes nos enxergam como inimigos. Não pode ser assim. Ninguém mais quer a volta do futebol do que os jogadores e queremos participar das discussões”, disse Fernando Prass.

Prass sempre foi um atleta preocupado com as questões que vão além das quatro linhas, inclusive, assumindo papel de líder pelos clubes onde passou. O goleiro foi um dos atletas que participou ativamente do Bom Senso FC, criado em 2013. O movimento, entre outras coisas, pedia uma maior participação dos atletas na discussão sobre o calendário esportivo.

Pela situação excepcional provocada pelo coronavírus, o Estado também entrou na discussão sobre a volta do futebol. Como existe uma questão de Direitos Humanos, de cuidado com a saúde, o esporte perde a sua autonomia na decisão sobre a volta das competições. Estado, autoridades de saúde, federações e clubes participam desse diálogo necessário sobre como tornar possível e seguro o retorno do esporte e o atleta está ausente dessa mesa de negociações.

Essa é uma realidade diferente da vista em outros lugares do mundo.

Nos Estados Unidos, o chefe da NBA, Adam Silver, tem tido reuniões virtuais permanentes com o presidente da Associação dos Atletas (NBPA), Chris Paul. Na pauta, como voltar com a principal Liga de basquete do mundo. Atletas, clubes e Liga estão unidos em busca de segurança para voltar com os jogos.

Em Portugal, 69 capitães de equipes de futebol portuguesas redigiram um manifesto que foi entregue à Federação Portuguesa. Nele está escrito que o impacto da pandemia será ainda maior para aqueles que ganham menos, onde muitos jogam pela sobrevivência.

Os atletas incentivam a criação de um fundo de apoio aos clubes, mas reafirmam que é fundamental que existam regras para o clube ter acesso a esse recurso como cumprimento de contratos e transparência de gestão. Assim, não se permite que gestões irresponsáveis tenham acesso a esse recurso fundamental de socorro.

E vamos ficar nesses exemplos e voltar para o Brasil.

Por aqui, está para ser votado no Congresso o PL 2125/2020, do deputado Arthur Maia (DEM-BA). Ele tem como justificativa socorrer os clubes nesse momento de crise, dando uma carência de até 12 meses para os pagamentos das parcelas do Profut.

Além disso, ele também prevê que, durante o período de calamidade pública provocada pelo novo coronavírus, aprovada no Congresso em 20 de março, o dinheiro arrecadado com a loteria Timemania seja repassado diretamente aos clubes. Hoje, a receita é repassada diretamente para a Receita Federal, que abate o valor da dívida dos clubes com a União.

Uma análise mais atenta, mostra que o PL também retira direitos dos atletas, como quando permite o não recolhimento do FGTS pelos clubes durante a pandemia e também determina a diminuição da cláusula compensatória pela metade, um dinheiro que os atletas recebem quando o contrato é rompido pelo clube.

Tudo sem contraprestação.

Os clubes precisam de socorro, claro, mas crise não pode jamais ser pretexto para alimentar a velha cultura da inadimplência e da irresponsabilidade na gestão esportiva. Se ganha um benefício, é preciso assumir responsabilidades, compromissos. Isso vale para mim, para você, para todos, em qualquer empréstimo bancário. Isso precisa valer também para o esporte.

“É indispensável que exista uma contraprestação dos clubes nesse Projeto de Lei. Caso contrário, ele vai premiar a gestão irresponsável no futebol e como em qualquer negociação, as duas partes precisam ceder. É importante entender que a classe de atletas, na sua imensa maioria, vive em dificuldades e esses direitos são importantes, ainda mais em um momento de crise,” disse Prass.

Sempre importante destacar que cerca de 90% dos atletas profissionais no Brasil ganham até dois salários mínimos por mês de salário. A realidade do trabalhador da bola é a mesma do trabalhador brasileiro, de dificuldades.

O discurso de Prass tem sido repetido por alguns colegas de profissão em um engajamento ainda raro na profissão (como em quase todas as categorias profissionais no Brasil). Eles já se posicionaram em cartas e vídeos contra o PL e explicaram os motivos, mas é fundamental manter vivo esse canal e agregar o maior número possível de atletas. Isso dará mais força e legitimidade ao movimento.

A união é sempre indispensável na proteção de direitos e na luta por melhores condições de vida de uma categoria. Isso é histórico e em momentos de crise, ela se torna indispensável.

Que os atletas se juntem nesse grande diálogo com a CBF, federações, clubes e governo. Os protagonistas do esporte também têm voz e ela precisa ser ouvida.

Fonte: Blog Lei em Campo – UOL


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