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No limite da realidade, Botafogo precisa de 2020 perfeito para cumprir metas esportivas e financeiras do orçamento

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Ao mesmo tempo em que contrata Honda e negocia com Yaya Touré, clube carioca precisará elevar receitas, cortar custos e ainda ter desempenho digno de 6º lugar no Brasileiro

Primeiro veio o japonês Keisuke Honda. A torcida se mobilizou nas redes sociais – e também fora delas –, a diretoria do Botafogo conseguiu termos financeiros que considerava aceitáveis, e o negócio foi fechado. Depois vem o marfinense Yaya Touré. A pedida salarial é mais alta, mas dirigentes alvinegros estão levando a negociação adiante, mais uma vez comovidos com o engajamento dos torcedores.

As contratações de jogadores de renome internacional colocam o Botafogo, como poucas vezes, em uma agenda positiva. Em vez de falar sobre salários atrasados, dívidas e penhoras, o noticiário se ocupa das chegadas de atletas que até ontem estavam nas principais ligas do futebol europeu. O que não diminui a dúvida na cabeça do torcedor e do mercado: dá mesmo para gastar esse dinheiro com tais reforços?

A base para responder a pergunta está no orçamento alvinegro para a temporada. O documento foi produzido pela diretoria com as projeções financeiras sobre 2019 e 2020, chegou ao Conselho Fiscal alvinegro para análise no fim de janeiro e precisará ser aprovado pelo Deliberativo. Um processo que deveria ter sido encerrado no fim do ano passado, entre setembro e dezembro, mas que ainda está em andamento.

Eis os principais números

Na tabela abaixo, organizada pelo blog a partir dos números que constam no orçamento botafoguense, a temporada de 2019 corresponde ao que foi realizado entre janeiro e setembro, mais uma projeção da própria diretoria alvinegra para os três últimos meses do ano. A temporada de 2020 contém apenas previsões.

As projeções financeiras do Botafogo entre 2019 e 2020

Em R$ milhões2019 (realizado/projetado)2020 (projetado)
Receitas155229
Custos-147-126
Deduções-7-9
Amortizações-7-5
Resultado financeiro-41-42
Resultado líquido-4747

Deduções são impostos aplicados sobre as receitas, amortizações são um item contábil com pouca importância para a análise. Você não precisa se preocupar com eles. A história do clube para a temporada que acaba de começar está nas seguintes variações:

  • O Botafogo precisará elevar as receitas em R$ 74 milhões em relação ao que arrecadou no ano anterior, um aumento considerável
  • O Botafogo precisará reduzir os custos em R$ 21 milhões, sendo que a maior parte está na folha salarial do futebol profissional
  • Juros sobre dívidas continuarão a pesar sobre o orçamento alvinegro, com mais de R$ 40 milhões desperdiçados entre bancos e credores

Como o Botafogo conseguirá reduzir seus custos com folha salarial e contratar Honda e Yaya Touré ao mesmo tempo? Por mais que a diretoria coloque pagamentos variáveis nos contratos dos jogadores, e ainda dispense outros, a folha mensal, segundo o orçamento, já está na casa dos R$ 5 milhões por mês. Haverá como aguentar um acréscimo?

Mais problemas na previsão

Ao mesmo tempo em que precisará gastar menos, o Botafogo necessariamente terá de arrecadar mais. Inclusive com linhas que não costumam gerar dinheiro relevante para o clube carioca, como transferências de jogadores. Só nesta fonte a diretoria precisará conseguir R$ 62 milhões para bater o que ela mesma orçou.

Bilheterias, sócio-torcedor e estádio – incluído em “outros” na tabela – representam a esperança dos dirigentes para fechar a conta. Honda e Yaya Touré podem ter um efeito positivo. A dúvida é se a presença desses atletas será suficiente para elevar médias de público, aumentar os preços dos ingressos, enfim, fazer a associação obter mais renda.

As projeções financeiras do Botafogo para 2020

Em R$ milhões2020 (projetado)
Televisão110
Atletas62
Bilheterias11
Patrocínios19
Social4
Sócio-torcedor9
Outros14
TOTALR$ 229 milhões

Como o orçamento não detalhou o realizado/projetado para 2019, não é possível dimensionar quanto dinheiro a mais será necessário em cada uma das linhas. O blog apurou, no entanto, que praticamente todas as fontes receberam reajustes relevantes em suas expectativas.

Em relação aos direitos de transmissão, precisamos lembrar que o futebol brasileiro ficou variável. Com a valorização das “premiações” da Copa do Brasil e com a mudança na fórmula do Campeonato Brasileiro, todo clube entra na temporada com a necessidade de cumprir determinadas metas esportivas para conseguir receitas.

No Botafogo, as colocações e fases estimadas são:

  • 6º lugar no Campeonato Brasileiro
  • Oitavas de final na Copa do Brasil
  • 2º lugar no Campeonato Carioca

Para cada frustração esportiva em relação ao que está previsto no orçamento, abre-se um buraco de alguns milhões na arrecadação. Caso aconteça, o clube ficará dividido entre a necessidade de cortar ainda mais custos – se é que isso será possível, com contratos assinados e elenco fechado para o ano – e a iminência dos atrasos salariais.

E no fluxo de caixa…

Até este ponto da análise, consideramos apenas os números previstos para o exercício dentro do que contadores chamam de “regime de competência”. Receitas, custos, alguns itens contábeis, como amortização e depreciação. A previsão de superavit (lucro) em R$ 47 milhões pode até fazer parecer que há margem para erro. Mas não há.

A parte do orçamento que deixa a realidade do Botafogo um pouco mais clara está no fluxo de caixa. Trecho em que são consideradas entradas e saídas de dinheiro das contas bancárias alvinegras, sem itens contábeis, com cobranças variadas de dívidas que não entram na competência.

Os números gerais são os seguintes:

  • Entram R$ 218 milhões em receitas
  • Saem R$ 9 milhões em deduções
  • Saem R$ 126 milhões em custos operacionais
  • Saem R$ 83 milhões em pagamentos de empréstimos bancários, Ato Trabalhista, Profut, acordos cíveis, acordos trabalhistas, parcelamentos e penhoras

O resultado no fim da temporada? Zero. Se tudo der certo. O futebol precisará conseguir a performance esportiva orçada, a diretoria está obrigada a conseguir novos patrocínios, a torcida terá de gerar as receitas esperadas com bilheterias e sócios-torcedores. Se tudo der absolutamente certo, a conta fecha em zero a zero.

É por isso que a migração para o Botafogo S/A precisa ser bem-sucedida. Se o Botafogo não tivesse de gastar R$ 83 milhões de suas receitas com o passado, teria um orçamento digno de primeira divisão, com capacidade de competir com Bahia e Red Bull Bragantino. Como está estrangulado, está no patamar de Ceará e Fortaleza. Ou ainda abaixo.

A previsão do fluxo de caixa do Botafogo para 2020

Mesmo com o otimismo nas receitas, o fluxo de caixa separado mês a mês mostra que a conta estará negativa durante a maior parte da temporada, com alívios apenas em julho e dezembro, quando supostamente o Botafogo venderá jogadores. Isso explica por que salários tendem a atrasar tanto. Não há nem crédito na praça para pegar empréstimos bancários para organizar esse fluxo mensal.

Ainda que no mundo ideal do orçamento botafoguense, com receitas elevadas e custos contidos, a previsão é de deficit em dez dos doze meses do ano. Na expectativa de que em agosto e dezembro sejam vendidos jogadores para reverter as perdas e fechar o fluxo de caixa no zero a zero. Se qualquer coisa der errado, não haverá alternativa. Salários continuarão atrasados, dívidas serão empilhadas.

Fonte: Blog do Rodrigo Capelo


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