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Opinião: Torço abertamente pelo Botafogo S/A, mas ainda há pontos de interrogação determinantes no projeto

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Ninguém sabe realmente quais são as condições para pagar credores. Se a comissão que cuida do projeto recorrer ao calotão proposto pelo deputado Pedro Paulo, causará muito mal a todos

Acaba de acontecer com a Gabriela Moreira. A repórter dá uma notícia que supostamente vai contra os interesses do Botafogo, e os torcedores entendem que ela, a jornalista, conspira para prejudicar o futuro da empresa que o clube pretende abrir.

Aconteceu comigo mês passado. Publiquei uma informação – diferente de “opinião” – sobre um pormenor do projeto, e torcedores me entenderam como um inimigo do Botafogo S/A.

Nem toda reação de torcedor em rede social merece resposta. Mas o assunto é importantíssimo. Diretamente, o plano botafoguense decidirá a sobrevivência do clube e a possível solução para dívidas com centenas de credores. Indiretamente, pelo exemplo que dará, o projeto pode provocar benefícios ou malefícios a todo o sistema do futebol brasileiro.

O que penso sobre o Botafogo S/A

Se o projeto da S/A não der certo, não haverá Botafogo como o conhecemos. Com um endividamento próximo a R$ 1 bilhão, o clube está sendo estrangulado pelo passado. O dinheiro que deveria entrar nos cofres para pagar o futebol do presente – receitas com televisão, patrocínios, bilheterias, sócios e atletas – não chega. Penhoras, bloqueios e acordos impedem que o clube funcione adequadamente.

Se algo tivesse sido feito dez anos atrás, de preferência vinte, o Botafogo teria jeito. Se receitas ordinárias aumentassem, se os custos fossem contidos, se o dinheiro fosse economizado nas áreas sociais e melhor aplicado no futebol, haveria como salvá-lo com planejamento e sacrifício.

Hoje não dá mais. Se o clube não encontrar dinheiro – muito dinheiro! – em algum lugar diferente para passar por uma reestruturação financeira, não haverá mais Botafogo. O time pode cair para a segunda divisão já em 2020, pode não voltar da segunda em 2021, ou pode continuar, na elite mesmo, do jeito que está há tempos: instável e pouco competitivo.

A S/A é solução. A única. O Botafogo precisa captar para lá dos R$ 300 milhões com investidores para aliviar seu endividamento e se salvar. A contrapartida oferecida a esses investidores é torná-los donos do negócio, proprietários da empresa que administrará o futebol alvinegro por um prazo longo, possivelmente de 30 anos, a ser confirmado.

Torço abertamente pelo sucesso do Botafogo S/A. Precisamos de clubes competitivos e saudáveis no futebol brasileiro. O campeonato ficará melhor com um Botafogo mais forte. Todos ganharão.

O que sabemos sobre o Botafogo S/A

Torcer abertamente pelo sucesso da nova empresa não implica da minha parte, no entanto, em uma leitura acrítica ou enviesada dos fatos. Notícia ruim também é notícia. Ideias temerárias precisam ser criticadas. Sobretudo porque o projeto, na vanguarda, tem potencial para influenciar o futebol brasileiro muito além de General Severiano.

A princípio, os irmãos botafoguenses João e Walter Moreira Salles contrataram a EY para que fizesse um estudo sobre a migração para o formato empresarial. A consultoria foi responsável por um traçado inicial. As conclusões e os caminhos propostos na época foram detalhados por mim em texto e podcast. Mas a história mudou.

Uma comissão coordenada por Laércio Paiva, composta por advogados, empresários e figuras da política alvinegra – entre eles o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro – recontratou a consultoria para tê-la como parceira, mas assumiu o protagonismo sobre o projeto.

As diretrizes ainda são as mesmas: abrir uma empresa, transferir o futebol para ela, captar investimentos no mercado financeiro. Mas o plano ficou diferente nas mãos desta comissão. Números e detalhes foram acrescentados, algumas premissas foram alteradas para equacionar as dívidas e tirar o clube do sufoco.

Eis um exemplo prático.

No início, a consultoria previa uma captação de algo entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões. Este dinheiro serviria principalmente para renegociar dívidas com credores, que aceitariam um deságio sobre os valores devidos, um desconto, único meio para quitar a maior parte dos débitos com o montante disponível. O futebol receberia pouca coisa. Não havia valor cravado, mas seria pouco, talvez uns R$ 30 milhões.

Que caminho seguirá o Botafogo?

É preciso deixar claro que existe uma relação direta entre a comissão do Botafogo S/A e o gabinete de Pedro Paulo. Sabedora de que não conseguiria abrir a empresa dentro dos prazos impostos pela CBF para mudanças de CNPJ, a comissão pediu ao deputado para que a modificação na lei incluísse a possibilidade de clubes-empresas migrarem de CNPJ sem limitações durante campeonatos.

Questiono insistentemente as pessoas próximas ao Botafogo S/A sobre a possibilidade de o clube fazer uso dos outros dispositivos, como a recuperação judicial e o novo Refis. As respostas variam entre duas versões. A primeira, curta e grossa, é não. A comissão não conta com as benesses propostas pelo deputado. A segunda é que a mudança na lei servirá como último plano. Se tudo mais der errado, não haverá alternativa senão aderir ao que propõe Pedro Paulo.

Os interesses do Botafogo nessa história são defendidos por dirigentes, políticos e advogados – e, claro, pela parte da torcida que troca um certo nível de ceticismo em relação ao futebol pela defesa acrítica e incondicional de um projeto que ainda não foi esclarecido.

Credores não estão representados na opinião pública. Pessoas receberam promessas de salário e mudaram suas vidas para trabalhar para o Botafogo, dentro e fora de campo, mas foram enganadas e tapeadas por sucessivos dirigentes. Como em todo o futebol, diga-se de passagem. Se as condições de negociação delas for desfavorável, alguém precisa alertá-las. O jornalismo também tem esse papel.

O fato inegável é que o Botafogo de Futebol e Regatas como conhecemos não é mais viável. O projeto de transformar o futebol em sociedade anônima é a maior esperança do clube, dos torcedores, dos credores e até da União. Se não funcionar, o clube tende a definhar e dificilmente conseguirá pagar suas dívidas.

Torço para que o Botafogo tenha sucesso na S/A, consiga se tornar novamente competitivo e sirva de inspiração para que outros clubes tentem o modelo empresarial, a captação de recursos no mercado financeiro e uma administração mais profissional e eficiente. Mas não torcerei pela salvação do Botafogo a qualquer custo.

Fonte: Blog do Rodrigo Capelo


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