Redes Sociais

Notícias

Timidez deixei pra trás: Marcelo Benevenuto abre o coração sobre Botafogo, família e sonhos

Publicado

em

Zagueiro de 24 anos foge das entrevistas coletivas, mas fala em exclusiva ao GloboEsporte.com em Domingos Martins-ES: “Ver minha família sorrindo é melhor que ganhar Copa do Mundo”

Marcelo Benevenuto vai para sua quarta temporada como profissional do Botafogo. Mesmo estando há mais de mil dias vestindo a camisa alvinegra, a impressão é que pouco se sabe sobre o zagueiro de 24 anos. É verdade que ele é tímido e, por isso, foge das entrevistas coletivas e zonas mistas, mas quando o assunto é família o jogador se transforma.

“Sou tímido, mas dentro de campo sou um leão”.

Em 2019, ano em que fez mais jogos que o capitão Joel Carli (33 a 31), Marcelo viveu momento emblemático. No dia 21 de setembro, entrou no Nilton Santos para enfrentar o São Paulo apenas um dia após a morte do pai Marco Aurélio, de 42 anos.

– Liguei para o Barroca: “Não vou treinar amanhã, porque meu pai faleceu, mas não me tira do jogo, porque eu vou jogar”. Ele mandou eu ficar à vontade, resolver tudo e disse que eu não precisava jogar. A caminho de Resende, sozinho, eu chorava o tempo todo pensando por que meu pai não foi ao médico, eu tinha feito plano de saúde para ele.

Em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com, o zagueiro abriu o jogo sobre sonhos, expectativas para 2020 e falou muito sobre como é feliz por ajudar sua família e sobre o seu lugar preferido no mundo: Resende, cidade onde nasceu no interior do Rio de Janeiro.

MARCELO BENEVENUTO

Quem é o Marcelo?

Sou esse que está vendo. Sou tímido, mas dentro de campo eu sou um leão, a timidez some. Procuro focar bastante dentro de campo para ter êxito nas minhas escolhas – bola longa, bote nos adversários… O Marcelo quando vai para Resende também gosta de estar junto da família e dos amigos. Sempre que estou lá gosto de fazer uma reunião em casa, chamo os amigos e ficamos jogando vídeo-game. Tudo entre amigos.

Sempre que eu tenho uma folga eu vou pra lá. Mas tenho que me segurar, porque os caras da fisiologia ficam bolados comigo por causa de recuperação. Mas estar perto da minha família me faz bem.

Em 2019 você fez mais jogos que o próprio Carli, capitão da equipe. Foi seu melhor ano?

Sim, porque foi o ano que mais joguei e também o ano que mais fiz gols, fiz três gols. Na verdade foram cinco, né? Dois contra (risos). Foram dois contra o Vasco, pelo Carioca e pelo Brasileiro, e um contra o Avaí.

Relação com Carli

Desde quando subi para o profissional pegava o Carli como referência. Muitas das coisas que eu sei eu aprendi com ele. Busco sempre o conhecimento dele. É um “chato”, mas um chato bom, que quer sempre o nosso bem. A gente às vezes fica bravo, mas sei que é para o nosso bem. A gente tem uma relação boa, nos entendemos bem.

Referência fora também. Quando o jogador precisa de algo, ele chega para conversar. Corre por nós fora de campo. É um líder.

Referências

Eu observo sempre o Kalidou Koulibaly, do Napoli. Gosto muito dele. Escutei a história de vida dele, era muito desacreditado, veio de uma família humilde também, assim como eu, e hoje é um dos melhores zagueiros do mundo. Me inspiro muito nele.

Aqui no grupo é Joel Carli, nosso líder, que me passou a experiência dele, quando eu subi ele me abraçou. Lembro de uma vez no treino em General Severiano que eu estava marcando o Sassá, ele fez alguma coisa e eu comecei a rir, e o Carli não gostou: “Nada de risadinha aqui”. Eu fiquei todo sem graça, tinha acabado de subir. Desde então não tem mais risadinha em campo.

Um momento marcante seu em 2019 foi o jogo contra o São Paulo. Você estava escalado, seu pai havia falecido no dia anterior e, mesmo assim, você pediu para jogar…

Quando eu ia para Resende meu pai ficava todo bobo quando eu aparecia na casa dele. Quando fiz o gol contra o Avaí, ele ficou feliz por ter visto no Globo Esporte. Meu pai era um cara muito do bem, tinha maldade nenhuma, era que nem criança. Gostava de assistir desenho e do personagem Hulk. Quando ele ficou no hospital uma vez até levei um quadro para ele do Hulk.

Antes de ele falecer, eu estava em Resende e minha avó falou que ele estava passando mal. Fui até a casa dele e ele disse que estava bem. Queria levá-lo no hospital, acabamos saindo, levei ele ao shopping para comer camarão, que ele gostava muito. Deixei ele em casa e, no dia seguinte, fui para o Rio. Na Avenida Brasil, o pneu do meu carro furou e meu amigo me ligou falando que meu pai tinha passado mal e ele o levou para o hospital. Fiquei tranquilo, porque meu pai sempre ia para o hospital e voltava pra casa. Ele não gostava de ir ao médico.

Uma semana depois, minha irmã falou que meu pai tinha que operar a cabeça. Ocorreu tudo bem na operação, e minha irmã me disse que só dependia dele para ele reagir e ficar bem. Quando ela falou isso, fiquei preocupado. Meu pai não tinha força para lutar. Eu estava no Rio, em casa, minha ex-namorada me liga falando que ele faleceu. Desliguei sem acreditar. Quando minha tia me ligou eu estava a caminho do dentista, ela estava chorando e vi que era verdade.

No caminho liguei para o Barroca: “Não vou treinar amanhã, porque meu pai faleceu, mas não me tira do jogo, porque eu vou jogar”. Ele mandou eu ficar à vontade, resolver tudo e disse que eu não precisava jogar. A caminho de Resende, sozinho, eu chorava o tempo todo pensando porque ele não foi ao médico, tinha feito plano de saúde para ele. Cheguei, a casa dele estava cheia, com minha avó chorando muito. Foi o quarto filho, de sete, que ela perdeu. Meu pai era muito novo, tinha 42 anos. Vou para Resende agora e ele não está lá, fica um vazio.

Entrei em campo no aquecimento já tentando me desligar. Quando subimos para começar o jogo, a torcida gritou o nome do meu pai. Ali não aguentei, chorei comigo mesmo. Em certos momentos do jogo eu não conseguia nem me concentrar, mas arrumava força de algum lugar para poder terminar a partida com ele me olhando lá de cima.

Família

Eu sou um cara muito família. Minha família é tudo pra mim, porque só Deus, eu e eles sabemos as dificuldades que minha mãe teve para criar os cinco filhos. Tenho três irmãs e um irmão. Sempre lembro das coisas que minha mãe fez por mim, do que meus irmãos e eu passamos. Hoje o Botafogo me proporciona dar alegria a eles.

Vê-los sorrindo é melhor que ser convocado para a Seleção, melhor que ganhar uma Copa do Mundo.

Primeira coisa que fiz foi comprar um apartamento para mim em Resende. No mesmo andar, eu comprei um para minha mãe, que morava de aluguel. Ela ficou toda boba. Há uns três meses eu comprei outro, fui para Resende na casa da minha irmã. Parecia até um Saara, de tão quente. Ela morava de aluguel também. Aí falei que daria o apartamento para ela. Do meu lado, meu sobrinho fez um sinal de comemoração com o braço. Fingi que não vi, mas é isso que vale.

Sonho

As pessoas me zoam, mas eu sonho jogar no Chelsea. Sou apaixonado pelo Chelsea, e o campeonato inglês é muito forte. Sempre assisto a jogos. Quando o Chelsea foi campeão da Champions League em 2012 faltou eu soltar fogos. Saí correndo na rua.

Primeiro eu quero sair daqui retribuindo tudo que o Botafogo me deu. Se não fosse o Botafogo, hoje eu não estaria dando essa alegria para minha família, não estaria tendo visibilidade. Espero ser convocado para a Seleção também, já que o Botafogo é o clube que mais cedeu jogadores para a Seleção. E um dia chegar ao Chelsea, depois voltar e me aposentar no Botafogo. Só saio hoje se for algo bom para o Botafogo.

Vou trabalhar para esse ser o meu ano.

Pré-temporada em Domingos Martins-ES

Não tem como desconcentrar aqui, não tem distração. Treinamos em dois períodos geralmente, aí já saímos cansados e só queremos dormir.

Valentim é um cara muito intenso, tanto que quando acaba os treinos ele está sempre correndo com a gente. Ele quer a posse de bola, verticalizar o jogo. Procura fazer com que a defesa esteja sempre preparada para a bola longa, para que tenhamos tempo para reagir, para chegar quando o adversário chega nas costas.

Acredito que esse ano será melhor que o ano passado, porque o Valentim está tendo tempo já na pré-temporada para colocar o jogo dele em prática.

Primeira pré-temporada com o status de titular

Só o status, né? Se eu não continuar trabalhando firme como venho trabalhando nos últimos anos, eu vou ficar pra trás. É continuar focado para poder ter as oportunidades.

Por esse status de titular, a pressão é maior?

Começo tranquilo. Todo jogador de futebol sofre pressão o ano todo. Tem jogos que vamos bem, tem jogos que vamos mal e aí a torcida já quer outro cara. Isso é normal.

O elenco está renovado, muitas caras novas chegando. Explica para eles: o que significa jogar no Botafogo?

O Botafogo é um time que nos últimos anos vem penando com essa parte financeira, mas a gente sabe que dentro de campo isso é esquecido. Os caras que estão chegando vão encontrar um grupo bastante fechado, disposto a ganhar jogos e títulos. Deixamos eles à vontade, porque aqui a parceria é grande.

Já deu pra conhecer a galera. Estou tentando interagir com o Lecaros, porque o Leo Valencia era com quem eu mais conversava, então estou conversando com o Lecaros direto. Tenho um aplicativo que traduz no meu celular, me ajuda a falar espanhol, então chamo ele para o grupo, porque ele é mais tímido que eu. Ele fala rapidão, já não entendo, assim fica mais complicado (risos).

Todos citam Cavalieri como referência. É para você também?

Aprendi muito com o Cavalieri apesar de ser de outra posição. Fico perto dele: “Caraca, é o Cavalieri”. Via ele muito pela televisão. Nem parece que tem a história que tem, muito humilde. O Gatito é o titular da posição hoje, mas o Cavalieri chega sempre antes para treinar. Ele inspira a gente para trabalhar no dia a dia. E ele gosta de Racionais, eu também. É muito legal. Um cara sensacional.

Gabriel conquistou espaço no Botafogo em 2019 e ficou muito querido pela torcida. Vai sentir falta?

Sim. A amizade fica, Gabriel é um cara sensacional também. Gostava muito de jogar ao lado dele. Apesar de ser novo, tem uma experiência absurda. Ele foi o craque do time em 2019, difícil um jogador manter uma regularidade assim. A gente não via o Gabriel jogando mal, sempre ele estava bem ou regular. Ele vai alcançar uma Seleção da vida, ele é um monstro.

Lesão na coxa direita em 2019

Coutinho (fisiologista do Botafogo) fala que eu tenho dificuldade para machucar, porque sou fibra rápida. Às vezes até me poupa de treino para eu me recuperar mais rápido e evitar esse tipo de lesão. Ele me conhece bem. Como minha característica é a velocidade é mais fácil eu machucar a posterior ou ter algo muscular.

Mas estou zero bala.

Fonte: Globoesporte.com

Clique para Comentar

Copyright © 2019 Rádio Botafogo. Todos os Direitos Reservados.

%d blogueiros gostam disto: